Entre a plenitude e o desaparecimento de uma cor
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 05 de dezembro de 2001
Rubens Pileggi Sá<br>De Londrina - Especial para a Folha 2 
''Não me interessa apenas escrever poesia. Quero é me colocar em estado de poesia. Ser uma antena, hipersensível. Feroz, como uma pantera. Sutil, como um vagalume. Intenso, como um vendaval. Ademir Assunção
A sensação de pertencer, de estar ligado a um canal por meio de ramificações, de realizar um percurso ao mesmo tempo em que ele é feito, pedra depois de pedra. A caminhada não é só a passagem de um ponto a outro, é o encontro em que o fora e o dentro estabelecem um pacto de identificação. Reconhecer as coisas pelo tato, olfato, visão, paladar, enfim, perceber as sensações não pelo nome, mas antes pelo envolvimento criativo que cada coisa mantém com outra, é estabelecer um modo de existência em que o real e o simbólico são forças que nos impulsionam ao fluxo da vida, no fluxo do mundo. Não vemos os átomos, as partículas infinitesimais espalhadas no cosmo, mas temos conhecimento, sabemos que por elas somos atravessados, que matéria e energia são compostos da mesma unidade. Tudo transmuda. A morte não é ponto final. Ponto final. O que importa é o movimento.
''Amar se Aprende Amando'' é o título de um livro do poeta Carlos Drumond de Andrade. Não é preciso falar dos fenômenos, justificá-los, quantificá-los, exumá-los feito cadáveres para tirar daí a conclusão de que o vermelho é vermelho. Que ele transmite a sensação do quente, do incandescente, do desejo ardente do fogo, da libido, do desejo. O sangue que corre dentro da gente. Como um dia claro, ao meio dia, onde os olhares são como raios de sol, soltam faíscas. Aí, no caso, o vermelho não é o que vem de fora, mas o que incorpora. O que faz latejar o coração. A morte sucumbindo ao amor.
Contemplar quer dizer deixar-se absorver por algo. É vivenciar uma situação.
É viver o templo. O tempo. Não só olhar uma paisagem, um objeto, um quadro, uma tela, uma pintura, ou uma idéia que atravessa a imaginação, mas entrar dentro da luz emanada desta obra (vermelha?), reconhecendo, ou aprendendo a reconhecer em si, o que há ali para ser absorvido, incorporado. Caos e ordem são dualidades do mesmo princípio. O apogeu de um é o desejo do início do outro. Que se embaralham e se potencializam. A criatividade nasce daí.
Afirmar este paradoxo é apostar que a diferença e a diversidade podem dar à arte um sentido conectado com a vida, deste fluxo onde todas as coisas estão em permanente mutação e transferência de energias umas com as outras, transbordando para além de si o seu sentido metafórico e simbólico. Quando o poeta se diz pantera, não só ele é pantera, sua força, agilidade e agressividade, mas também a pantera ganha todo um sentido que são qualidades do próprio homem. Ser um só com o mundo é ser dono de uma consciência capaz de tornar coisas aparentemente banais em forças e vetores produtores de mudança na percepção. O vermelho agora pode ser chamado rosa, flor, veludo. Mas antes é preciso sentí-lo como carne, terra do norte do Paraná, o ''eterno feminino'', matéria.
Uma rosa é uma rosa é uma rosa é uma rosa, já dizia Gertrude Stein, em seu poema, no começo do século passado entre Picassos cubistas e estilhaços da Guerra Mundial. Nada substitui a experiência e é nela que encontramos os vestígios de mitos e heróis ancestrais. De metáforas e símbolos que dão sentido a nosso percurso. Como o poder de uma cor sobre nossas sensações. A paisagem furiosa cede, aos poucos, para o vermelho que torna o céu ensanguentado. O nome da cor se põe atrás do horizonte. O dia morre.
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