Entre a ópera e o madrigal
A família já sabia da exclusividade do repertório, quando o garoto William, com três anos, resolvia cantar. As interpretações se restringiam aos sucessos de Roberto e Erasmo Carlos. O gosto musical mudou com o tempo, e o que era brincadeira se tornou prioridade. Hoje Lombardi atua como tenor lírico do Teatro de Bienne, na Basiléia, Suíça, onde lançou em abril o primeiro CD, cantando madrigais com o grupo Voce Poetica.
Da sala de estar londrinense para personagens como o Conde Almaviva, de O Barbeiro de Sevilha, de Rossini - que William interpretou em 96 - a trajetória do cantor foi trabalhosa e cheia de surpresas.
Ainda na infância, Lombardi - que nasceu em Florestópolis e mudou para Londrina com um ano de idade - desejava aprender piano. Aos 13 anos já tocava violino e, aos 16, ingressou no Conjunto Música, o embrião da Orquestra Sinfônica da Universidade Estadual de Londrina. Posteriormente, ele desistiria do curso de Psicologia para se dedicar à música.
ReproduçãoO CD Voce Poetica reúne madrigais compostos por Sigismondo dIndia, cuja obra foi resgatada há cinco anosAlém da Orquestra, Lombardi também se apresentava com o grupo Arabesco, de música antiga. O conjunto foi para a Suíça, onde permaneceu trabalhando por três anos. Foi então que as coisas mudaram para o violinista.
Eu também cantava no Arabesco, mas necessitava de um apoio técnico, pois me dedicava muito mais ao violino. Por isso fazia algumas aulas de canto. Um dia o professor me disse que eu deveria decidir entre o canto e o violino, comenta Lombardi, que está de férias em Londrina. O músico já estudava na Schola Cantorum Basiliensis, que faz parte da Academia de Música da Basiléia, quando optou pelo trabalho vocal, em 1994.
Em oito meses, William Lombardi se preparou e conseguiu a aprovação para o Estúdio de Ópera do Conservatório da Academia. Me formei em 96 e comecei a trabalhar no Teatro de Bienne, onde participei como solista em algumas óperas, explica.
Como cantor lírico profissional, Lombardi atuou em montagens como Ariana, ópera barroca de Benedetto Marcello; A Viúva Alegre, de Lehár; A Hora Espanhola, de Ravel; Os Bandidos, de Offenbach; e LInfedeltá de Lusa, de Haydn, entre outras.
O intérprete voltará à Suíça no dia 26, onde começa a trabalhar na montagem de O Morcego, de Strauss, no musical The Fantastics, da Broadway, além de participar de missas, cantatas e oratórios. O Teatro de Bienne não é um teatro grande, mas que se preocupa com a qualidade do trabalho. Para um início de carreira é uma experiência muito proveitosa, principalmente pelo fato de que algumas pessoas que trabalham lá foram meus professores, argumenta Lombardi.
Enquanto se dedicava à ópera, William desenvolveu uma carreira paralela. Na Schola Cantorum, o músico participou de um curso de quatro semanas com Anthony Rooley, do Consorte of Musicke, da Inglaterra. Da experiência surgiu um grupo com repertório voltado para compositores renascentistas italianos, como Monteverdi e Sigismondo dIndia.
O trabalho continuou após o término do curso, e o grupo foi convidado em 96 para um concerto na Academia de Música da Basiléia. Batizado de Voce Poetica, o conjunto fez apresentações em Berna, Zurique e York, onde ganhou o primeiro lugar em um concurso internacional.
O concurso reuniu gente de toda a Europa e da América do Norte. Com o auxílio do primeira colocação, fizemos um projeto que foi enviado para empresas suíças solicitando recursos. A verba chegou e decidimos gravar o CD. É uma produção independente, que vendemos apenas em concertos, acrescenta.
O álbum Voce Poetica reúne madrigais compostos por Sigismondo dIndia, um compositor que foi muito popular em vida, mas que posteriormente caiu no esquecimento - o resgate de sua obra ocorreu há cerca de cinco anos. Dos oito livros de madrigais escritos por Sigismondo, sobraram apenas dois completos.
As pessoas gostam muito deste CD. Fizemos uma gravação para realçar a naturalidade de um concerto, para que não ficasse excessivamente técnica. A gravação soa o mais real possível, ressalta o cantor. O grupo Voce Poetica é formado por Agnieszka Kowalczyk, da Polônia, Elena Kholodova e Alexei Kholodov, da Ucrânia, e Andreas Schmidt, da Alemanha, além de Lombardi.
O conjunto já está com uma série de concertos agendados e, provavelmente, voltará à Inglaterra no começo do ano que vem. Esperamos encontrar um patrocinador para gravar um CD em homenagem aos 500 anos do nascimento do compositor italiano Luca Marenzio, revela Lombardi. O disco do Voce Poetica pode ser adquirido com Luciene Lombardi, pelo telefone (043) 339-0101.Dorico da SilvaAgnieszka Kowalczyk e William Lombardi, do Voce Poetica:
trabalho resgata obras dos renascentistas italianosRanulfo Pedreiro





