Entre a modernidade e a poética indígena
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 31 de janeiro de 2001
Rodrigo Souza Grota De Londrina Especial para a Folha2 
A escritora paranaense Josely Vianna Baptista - nascida em Curitiba, mas radicada em Primeiro de Maio - diz ter iniciado sua paixão pela literatura ao conhecer o cheiro das capas de couro vermelho de uma coleção de livros de Julio Verne, que ganhou de seus pais aos 10 anos. Além da criação literária - publicou oito livros, entre os principais Sol sobre nuvens, AR, Corpografia e A Concha das Mil Coisas Maravilhosas do Velho Caramujo -, também atua no árduo mister da tradução, tendo recebido em 1999 o prêmio Jabuti da Câmara Brasileira do Livro pela tradução de poemas e ensaios de Jorge Luis Borges. A escritora acaba de receber uma bolsa da Fundação Vitae para escrever um livro de poesia (Do zero ao zênite: com viagem à Cena de Origem Mbyá-Guarani) e realizar a primeira tradução em português de fragmentos do Ayvu Rapyta, o Gênese dos Mbyá-Guarani. Em entrevista concedida à Folha 2 por e-mail, Joselly fala de seu projeto premiado.
Qual será o tema do livro Do zero ao zênite?
Meu projeto propõe a escritura de um série de poemas que irão dialogar, formal e conceitualmente, com peças cosmogônicas ancestrais da etnia indígena sul-americana Mbyá-Guarani, na tentativa de estender uma ponte entre poéticas da modernidade e a mitopoética indígena. Em sua fase inicial, o trabalho compreende a realização da primeira tradução, do mbyá-guarani ao português, dos mitos de criação do mundo, do homem e da linguagem humana reunidos em Ayvu Rapyta - textos míticos de los Mbyá-Guarani del Guairá.
O livro de poemas Do zero ao zênite consiste numa livre reflexão sobre cultura e natureza, percepção e representação, que investirá formal e tematicamente na criação de textos em que arcaico e moderno se encontrem em cruzamentos híbridos. Desse ponto de vista, questões como a fissura existente entre o real e o signo que tenta representá-lo, o moderno laceramento da memória, os ritos - em sua vertigem de talhes e detalhes - de passagem, da reprodução e da morte (esta que, historicamente, a arte e a poesia tentam exorcizar), serão pensadas por mim ao escrever os poemas.
Em via de mão dupla, enquanto a tradução utilizará recursos poéticos potencializados pelas vanguardas históricas, os poemas trabalharão também com elementos formais da língua indígena. A escritura dos poemas será antecedida de algumas viagens a comunidades mbyá do Paraná e da região vizinha do Guairá (Paraguai), onde foram coligidos os cantos do Ayvu Rapyta.
Conhecer as comunidades mbyá e os rituais remanescentes, os últimos indígenas portadores da palavra sagrada, contemplar sua paisagem serão o objetivo dessas viagens, durante as quais serão feitas as anotações que darão origem aos poemas.
Qual a representatividade deste prêmio para você?
O prêmio é muito importante para mim, pois vai viabilizar um projeto pelo qual venho batalhando há algum tempo, e que seria difícil realizar sem subsídios como os oferecidos pela Fundação Vitae. A Fundação é uma das mais conhecidas e respeitadas agências de fomento à pesquisa brasileiras. Em seu conselho diretivo estão Antônio Cândido, Celso Lafer, José Mindlin, Fernando Moreira Salles, entre outros. Todos sabem, além disso, que o prêmio da Vitae é um dos mais importantes do país, então é claro que fico muito feliz com ele, e isso me dá mais força pra continuar nessa seara tão difícil da poesia, da tradução, da poesia indígena.


