Entre a melodia e alguns berros
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sábado, 28 de fevereiro de 1998
Nelson Sato 
César AugustoSérgio Nakashima cantando música japonesa, diante de amigos, no TomatoPode se preparar. Se você ainda não foi soltar a voz em um karaokê, vai acabar indo a um este ano arrastado por parentes, amigos, vizinhos ou colegas de trabalho e sala de aula. Depois de estourar no Brasil no final dos anos 80, sair de moda e ficar restrito aos festivais organizados pela colônia japonesa, a mania dos karaokês está voltando a ser uma opção de entretenimento para os moradores das grandes cidades.
Karaokê, que quer dizer sem orquestra, consiste em cantar sobre uma base instrumental pré-gravada. Mas se até pouco tempo as pessoas ainda liam as letras das músicas em folhas de apostilas seguindo apenas os apelos rítmicos da canção, que então eram gravadas em fitas-cassete, hoje em dia um aparelho (vídeo-kê) permite a visualização da letra num monitor e facilita o desempenho do intérprete com o acompanhamento completo (ritmo e melodia) do fundo musical.
Em Londrina, duas novas casas - New kampai e Interbase - foram inauguradas no ano passado estimulando a performance dos cantores de banheiro e de vozes amadoras talentosas. O karaokê funciona como uma terapia pra mim. Saio tão cansado do consultório que não dá para dormir, aí passo no karaokê para soltar a voz e dar uns berros - diz o dentista Jefferson Ken Moriaka que, além de frequentar casas do gênero, costuma animar festas e encontros familiares improvisando um karaokê-bar com seu vídeo-kê.
César AugustoFamília e amigos em box reservado do New Kampai Karaokê, em Londrina
Acho que o surgimento do vídeo-kê é o responsável pela abertura dessas novas casas - acredita a professora de canto Mitiko Takemura Shiroma, dona da Mity Escola de karaokê. A escola, fundada há mais de dez anos, passou ao largo do vaivém modista graças aos festivais de karaokê, que sempre levam cantores amadores a buscarem aulas de iniciação ou aprimoramento.
Embora tenham pouca repercussão na mídia, os festivais do gênero arrebanham grande número de participantes e de público. No mês passado, os que acompanham essa movimentação viveram dias gloriosos com a realização no Brasil do maior programa de calouros do Japão - o NHK Nodojiman, transmitido para 42 países. O evento foi gravado no Palácio das Convenções do Anhembi, em São Paulo, como parte das comemorações do 90ºaniversário da imigração japonesa.
Foi a primeira vez, em 50 anos, que o programa foi realizado fora do Japão. Eles resolveram trazer o festival para cá por causa do sucesso do karaokê no Brasil - observa Mitiko. 674 candidatos de todo o País carimbaram suas inscrições na etapa eliminatória.
Mas o espírito competitivo não é a principal razão das casas de karaokê estarem quase sempre lotadas nos finais de semana. Recém-chegado do Japão, onde trabalhou durante dois anos como dekassegui, Sérgio Nakashima, 29 anos, acha que por aqui os brasileiros frequentam os karaokês mais por diversão do que propriamente para treinar visando festivais.
É mais por brincadeira, para não ficar só cantando no banheiro - diz ele, aplaudido pelos amigos depois de interpretar uma canção japonesa em uma das salas reservadas do Tomato, um das cinco casas de karaokê de Londrina. Além do Tomato, o New Kampai e o Benny House também reservam salas especiais para grupos de amigos, turmas de escolas e familiares.
O Canto Livre, que existe há 8 anos (tendo mudado uma vez de endereço), se assemelha ao Interbase funcionando mais como um bar que conta com um vídeo-kê para animar o ambiente.


