Entre a inocência e o crime
‘‘O Ciclista’’ confirma a qualidade e a originalidade do cinema oriental

ReproduçãoTran Anh Hung demonstra sua habilidade e talento com ângulos de câmera jamais vistosO filme ‘‘O Ciclista’’, vencedor do Leão de Ouro no Festival de Veneza, em 1995, é uma obra violenta, amarga e desoladora. Dirigido por Tran Anh Hung, que também assinou a direção do sensível ‘‘O Cheiro do Papaia Verde’’, o filme vai fundo nas origens orientais do cineasta, mostrando um universo marcado pelo sofrimento. Nas primeiras cenas, o diretor se preocupa em mostrar o formigueiro humano que perambula pelas ruas de Ho Chi Min (ex-Saigon), onde a bicicleta, além de ser o transporte mais utilizado, é também um instrumento de trabalho para grande parte da população.
Tran Anh Hung utiliza esse recurso para contar a história de um jovem que tem sua bicicleta roubada e por causa disso não consegue emprego. Sem condições de ganhar a vida através do trabalho, o ciclista acaba se envolvendo no mundo do crime organizado. A partir de então, o filme se torna cada vez mais árido e angustiante. A câmera do cineasta funciona como uma janela aberta sobre a cidade, mostrando um Vietnã que ainda tenta se reconstruir após tantos anos de guerra. Estão lá os mutilados, os órfãos, as viúvas e os jovens desesperançados diante de uma realidade cruel e dolorosa.
O filme não é apenas um inventário sobre o pós-guerra, mas também um retrato antropológico sobre amor, violência e inocência. ‘‘O Ciclista’’ acaba sendo um guia que transporta o espectador das ruas congestionadas para o submundo onde impera uma crueldade sem limites. Tran Anh Hung demonstra sua habilidade e talento com ângulos de câmera jamais vistos, construindo cenas de tirar o fôlego. Sem medo de ser audacioso, o diretor expõe toda a sua riqueza criativa. O filme é uma boa oportunidade para conhecer o cinema oriental que vem se destacando por sua qualidade e originalidade.
Duração: 120 minutos.
(C.M.)

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