Marcelo AlmeidaTony Bellotto, de músico a escritor, lança o segundo livro e dá autógrafos em
CuritibaO guitarrista dos Titãs, Tony Bellotto, passou duas horas da última segunda-feira, na Livrarias Curitiba, autografando ‘‘Bellini e o Demônio’’, lançado pela Companhia das Letras. Das 18h às 20h, cerca de 150 exemplares levaram a assinatura do moço. Remo Bellini, o detetive de inconfundível sotaque paulistano, mesmo nas páginas do livro, seria um sujeito trapalhão não tivesse ele inseguranças, desejos e fantasias de qualquer mortal. Sua estréia foi há três anos em ‘‘Bellini e a Esfinge’’. Nesta nova aventura tudo tem início com o assassinato de uma garota no banheiro do colégio. Bellotto, pai de dois filhos, divide-se entre os palcos e a escrita. É uma pessoa duplamente feliz, como disse nesta entrevista exclusiva à Folha2, depois das 150 assinaturas.
Como você faz a separação da música com a literatura?
Comigo funciona de um jeito bem orgânico. Acho que são maneiras de me expressar bem diferentes uma da outra. E a maneira como me disciplinei a trabalhar também é diferente. A música é uma coisa bem coletiva, prazerosa. Componho com meus amigos, tem um espírito de brincadeira. Já escrever é uma coisa um pouquinho mais obsessiva, no meu caso exige uma disciplina rígida, tenho que levantar cedo, me concentrar. Levanto muito cedo, a casa ainda não começou a funcionar, não tem telefone tocando...
O desenrolar do seu romance é um tanto intrincado, uma coisa leva à outra, volta. Você tem tudo isso em mente ou os personagens vão tomando vida à medida que você escreve?
Eu parto sempre de um esqueleto, de um corpo da trama. Seguindo essa linha mestra as coisas vão se desenrolando e, realmente, tem momentos que acontecem coisas em que você não estava pensando. Aí, percebem-se relações que se sugerem no próprio texto e no próprio caminho que vai trilhando a narrativa. Ouvi falar de gente que escreve partindo do nada, mas para mim é complicado porque eu poderia perder o domínio da coisa. Eu sei que em determinado momento tal personagem vai morrer ou outro vai seguir por ali e, entre uma coisa e outra, eu me solto um pouco mais.
Quando você coloca citações literárias ao longo do livro, é casual ou intencional, no sentido de levar uma informação a mais ao leitor?
Acredito que quem gosta de literatura policial, em geral lê muito os livros policiais. Uma coisa que gosto de encontrar nesses livros são referências sobre outras obras e personagens deste gênero de literatura. É como um jogo que uma parte dos leitores curte. É um prazer a mais que se encontra, além daquele proporcionado pela trama em si. É importante isso existir sem comprometer a narrativa para quem está lendo e não percebe a referência. Não pode atrapalhar.
O seu personagem, Bellini, foge à rudeza de um detetive clássico...
Eu acho. Tanto no detetive tradicional da literatura americana, que é um sujeito marcado, mais grosso, como também na literatura brasileira, a própria realidade é mais brutal. Bellini tem resquícios de um personagem romântico, sua ingenuidade é até incoerente com um homem que tem por profissão trabalhar com o submundo. Mas acho isso uma característica dele, porque senão ele correria o risco de ser uma caricatura de detetive tradicional da literatura americana. Eu quis criar um personagem humano, acho que essas contradições se resolvem bem no Bellini.
Bellini existe na realidade?
Acho que existe sim, em termos da credibilidade humana que ele possa ter. Mas o universo de Bellini se refere muito mais à literatura que à realidade. Porque não sou um cara - nem me atraio para isso - de fazer pesquisa, como alguns autores fazem, indo a delegacias e Instituto Médico Legal. Tenho uma preguiça enorme. Então tem alguma coisa de irreal nisso tudo, que é proposital mesmo. Em nenhum momento o Bellini, ou a trama, têm que ser absolutamente críveis. A trama poderia estar acontecendo, mas tem alguma coisa que transcende a realidade bruta pura e simples.
Esse lado terno do protagonista é você?
É difícil a gente conseguir determinar até onde estou colocando coisas que acho que são semelhantes à minha personalidade e outras diferentes. No Bellini tentei fazer uma mistura de coisas que são parecidas comigo e outras que são diferentes. No caso dessa ternura, dessa ingenuidade, eu me identifico com ele.
Você está pensando num próximo livro?
Tenho algumas idéias, de certa maneira uma trama rascunhada para um próximo Bellini. O que está me faltando agora é tempo para conseguir conciliar tudo, porque o sucesso muito grande do disco ‘‘Acústico’’ determinou uma maratona de shows, entrevistas e está muito puxado. Está me faltando tempo não só físico, mas tempo psicológico. Assim que a coisa esfriar um pouco, eu já tenho a idéia e vontade de escrever. É ruim você começar e não acabar.
Quando você escreve, os personagens ficam lhe rondando? Você vai fazer um show e sente-os próximos ou desliga uma coisa da outra?
Impossível desligar, eu até tento. Teoricamente o ideal seria ficar com eles nas duas, três horas em que estou escrevendo, e quando levantasse me desligasse completamente. Mas até em situações corriqueiras, almoçando com a família, você começa a pensar na trama, como se o livro te roubasse da realidade. Então acho que é muito fácil o escritor entrar numa obsessão e se tornar um sujeito solitário, arredio. Escrever é muito sedutor e algumas vezes acontece do personagem que você inventou ter uma atitude que você se surpreende. É estranho, mas parece que ele adquire vida própria.
Você dá liberdade a seus personagens?
Liberdade controlada. Deixo ir até certo ponto. Se ele começar a mudar muito o rumo da minha história, exerço minha função de criador.
Há possibilidades de se colocar o rock na sua literatura, misturá-lo nas peripécias de Bellini?
O rock no sentido do mundo do show bussines eu já pensei. É um tema que julgo muito interessante. Muitas vezes as pessoas me perguntam se a música que faço tem a ver com a minha literatura. Eu respondo que no sentido da expressão artística, não. São maneiras muito diferentes das coisas acontecerem.
A literatura apareceu antes ou depois da música?
É difícil dizer, mas é mais provável que apareceram juntas. Eu me lembro de ter sempre esses sonhos desde muito pequeno de ser um guitarrista, me estimula a figura dos músicos de rock, mas também a do escritor.
Dando-se bem na música e na literatura, você é duplamente feliz?
Por um ângulo de visão, concordo. Eu me considero mesmo feliz por poder realizar meus projetos. O fato de ser conhecido na música ajudou um pouco, mas se o livro não tivesse qualidade a Companhia das Letras não teria publicado.
O músico no palco e o escritor na solidão do escritório. O que é mais excitante?
O mais excitante é o artista no palco, principalmente porque ali tem troca. É uma coisa feita com outras pessoas. É mais estimulante, as emoções são mais viscerais.
Você sabe o que vai parar antes na sua estrada? O que ficará até o final?
É meio difícil dizer. O show business tem uma coisa de limitação física. Eu vejo uma banda de rock com um tempo de produção limitado, finito. Uma hora você fica velho para aquilo. Pode ser uma idéia errada, mas acredito que escrever dá mais tempo.
E na música, quais são seus planos?
Tivemos um sucesso inesperado com o ‘‘Acústico’’ e fomos alçados a um nível que não estávamos antes. Isso foi muito bom, mas determinou também um certo cuidado em relação ao que vem agora. No próximo disco não poderemos frustrar quem gostou deste acústico nem queremos frustrar os antigos fãs que esperam da gente uma atitude mais rock’n’roll. De qualquer maneira pretendemos gravar um disco agora em maio/junho, para ser lançado logo depois da Copa. Será um CD de passagem, de alguma maneira uma continuidade deste. Vamos rever algumas músicas do repertório, que ficou fora do acústico, e vamos trabalhar um pouco mais essa sonoridade com instrumentos diferentes, com coisas sinfônicas e tudo isso. Vai ser um disco meio irmão do ‘‘Acústico’’. Depois vamos dar uma parada e aí sim, vem um disco novo, com uma nova concepção que a gente nem sabe qual vai ser.
Quando vai ser essa parada?
Nosso plano é lançar um disco novo agora, provavelmente seguir com excursão até o meio de 99. Depois ficar parado o resto de 99 e talvez o ano de 2000 inteiro.

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