Entre a floresta e o sertão
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quinta-feira, 03 de janeiro de 2002
Marcelo Delduque 
O ponto de partida para quem quer conhecer o paraíso chamado Chapada das Mesas é Imperatriz, maior cidade da região, com 300 mil habitantes e vôos para os principais pontos do País. De lá, segue-se por 120 quilômetros pela Rodovia Belém-Brasília, sentido Brasília, entrando à esquerda em direção a Carolina. São mais cem quilômetros até a cidade. Mas muito antes avistam-se as primeiras montanhas e a estrada, que até então era uma reta sem fim, passa a ser sinuosa.
O cenário é ao mesmo tempo monumental e desolador. A vegetação rala do cerrado parece que vai sucumbir a qualquer momento ao calor. E, de fato, incêndios e queimadas são vistos o tempo todo em vários pontos no horizonte. As imensas escarpas de arenito dos chapadões, gastas por milhões de anos de chuva e vento, interrompem abruptamente essa aparente monotonia dos campos, justificando o fascínio despertado pela região. Favorecidas pela geografia acidentada, as águas que brotam no alto das serras precipitam-se em imensas cachoeiras. Algumas muito populares na região, outras quase inacessíveis.
A pacata Carolina, às margens do Rio Tocantins, é a cidade de apoio para se conhecer essas quedas. Em tempos passados ela foi uma das mais prósperas localidades do sul do Maranhão. Com a construção da Belém-Brasília, que passou a cem quilômetros dali, a cidade ficou no esquecimento. Hoje, está se tornando um destino cobiçado por ecoturistas graças às cachoeiras que tem em volta e às praias do Rio Tocantins, que aparecem na época da seca, entre junho e o fim de agosto. Carolina é a única cidade da região com alguma infra-estrutura hoteleira para receber os visitantes.
O público, atualmente, ainda é basicamente gente vinda das redondezas. Todos os fins de semana, ônibus e mais ônibus desembarcam nas Cachoeiras de Itapecuruzinho e Pedra Caída, de acesso mais fácil. O Santuário da Pedra Caída, principal cartão-postal de Carolina, fica no fim de um cânion. A água brota de uma fenda na pedra, criando um efeito impressionante. Já em Itapecuruzinho repousam os restos da mais antiga hidrelétrica da região, construída em 1940. Quem quer tranquilidade deve visitar essas atrações durante a semana. E é bom preparar-se para encarar lixo e pedras riscadas pelo caminho.
Cem quilômetros além de Carolina, no município de Riachão, fica a incrível Cachoeira de Santa Bárbara, no Rio Cocal, com 78 metros de altura. O acesso é feito por uma estrada de terra de 28 quilômetros em boas condições de tráfego. Além dela, vale a pena conhecer o Poço Azul, de águas cristalinas, no mesmo rio. Bem perto dali, há uma pousada rústica.
Para ir além dessas cachoeiras é preciso ter a companhia de pessoas que conhecem a região e o apoio de carros com tração nas quatro rodas. As cascatas do Rio Farinha (São Romão e Prata), por exemplo, são alcançadas por uma estrada de terra e areia de 40 quilômetros que mais parece um labirinto. Não são altas não passam de 20 metros de altura , mas impressionam pelo grande volume de água.
Na Cachoeira de São Romão há uma pequena praia ideal para o camping selvagem. O proprietário das terras que encostam no rio tem uma pequena estrutura no local e prepara refeições com galinha caipira para os visitantes, uma especialidade desta parte do sertão maranhense.
Há um projeto em andamento de construir pequenas usinas hidrelétricas ao longo do Rio Farinha. O assunto está na pauta do dia em Carolina, onde ambientalistas já criaram até um movimento chamado SOS Rio Farinha. Teme-se que o fluxo turístico ainda incipiente, não sirva de argumento para barrar as obras. Se os ambientalistas perderem a batalha, logo será tarde demais para conhecer o Rio Farinha.


