Entre a ética e a criação
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 13 de abril de 2006
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br>Especial para a Folha 2 
Filmes autobiográficos ou cinebiografias são armadilhas constantes para os realizadores. Boa parte delas, a maioria talvez, incorre em falta grave, isto é, são tão empenhadas em mostrar os supostos fatos da vida que deixam de lado a personalidade dos biografados. No caso de gente do mundo das artes, o equívoco geralmente é mostrar cada um executando sua performance, sem explicar as motivações daquela performance.
Por sorte Capote não quis ser a cinebiografia do famoso escritor Truman Capote. Em vez disso, trata-se do exame das circunstâncias que deram origem ao best-seller e clássico literário da vertente do jornalismo investigativo, A Sangue Frio (In Cold Blood). Todos lucram com este enfoque, mas especialmente o espectador, que não tem que lidar com uma biografia academicamente rasa, e que se vê envolvido com o complexo e fascinante retrato do homem e de sua criação. O filme está a partir de hoje na cidade (confira a programação de cinema na página 2)
Logo no início da narrativa o escritor (Philip Seymour Hoffman) já desfruta de grande popularidade por conta de livros tão estimados como Breakfast at Tiffanys, que viraria um cult de cinéfilos conhecido como Bonequinha de Luxo, que por sua vez consolidaria o mito Audrey Hepburn, que por sua vez cantaria em determinada cena o imortal hit Moon River... mas esta já uma outra história.
Capote é naquele momento - início da década-emblema do anos 1960 - sucesso unânime de crítica e público, e desfruta de enorme prestígio entre os colegas de ofício. Então, estranhamente atraído pelo noticiário policial onde lê o relato de um crime hediondo, ele viaja com a amiga Harper Lee (Catherine Keener) rumo a uma pequena cidade do Kansas. E decide escrever uma reportagem sobre o assassinato de uma família cometido por dois ladrões. Mas o que na verdade ocorre a partir daí terá conseqüências decisivas na vida do escritor obsessivo.
O diretor Bennett Miller, com uma condução pausada mas implacável, vai aos poucos oferecendo de maneira tácita o conflito interno do personagem-título. De personalidade enganosamente afável, ele oculta um filão de crueldade que se mostra necessária para alcançar seu ímpeto criativo. Um dos estimulantes dilemas propostos ao espectador é saber se existia, e em que grau, a malícia de Capote no comportamento investigativo. E uma das virtudes deste filme que exige boa dose de paciência do público é sugerir que, do ponto de vista do escritor, o fim justifica os meios. E não importam aqui as vítimas, sempre e quando o trabalho transcenda os fatos e as vidas das mesmas. Como se nota, matéria para um semestre inteiro em torno da ética no jornalismo.
Capote, sem dúvida, é também uma destas vítimas, sacrificando até consciência, valores e integridade em busca da perfeição de sua arte. Mas não se trata aqui de abraçar ou condenar causas, de absolver ou punir comportamentos, mas de ser capaz de contemplar este tema espinhoso. Aliás, contemplação é o que se pede diante de Capote, já que não se trata de filme de drama crispado ou em cima de coletânea de escândalos. É, isto sim, o traçado do colapso emocional de um homem apanhado entre sua consciência e a necessidade de criar e transcender. De resto, condição que atormenta parte considerável da humanidade.
Hollywood está sempre reivindicando a força de suas estrelas como selo de identidade da indústria. Mesmo quando uma dessas estrelas é Philip Seymour Hoffman, alguém que, por força do talento, fez da falta de atrativos físicos seu atrativo principal. Neste drama sóbrio, a interpretação de Hoffman é grande parte do espetáculo. A sutileza no relacionamento com um dos assassinos e a ambigüidade na relação consigo mesmo são apenas parte do inteligente repertório que ele distribui com maestria ao longo da narrativa.
É atuação no mínimo de antologia.


