A única menção de um par romântico formado por Julia Roberts e Brad Pitt já é motivo para arrepiar os fãs da dupla – de carteirinha ou mesmo os mais envergonhados.
Dois campeões individuais de bilheteria, juntos, são ainda mais poderosos, e todos só têm a lucrar: os próprios, os produtores, o exibidor. Mas falta alguém na lista de bafejados pela fortuna. E se você acha que o menos favorecido nesta relação foi o público, acertou em cheio. Apesar das belas, cintilantes e atraentes estrelas, de um invejável elenco de coadjuvantes e de uma história misturando humor, romance e aventura em pleno deserto mexicano, ‘‘A Mexicana’’ tropeça nas próprias pernas. Vale dizer, no próprio argumento, que consegue a proeza de implodir o carisma da fórmula Julia-Pitt.
‘‘The Mexican’’ tem aspirações transgênicas. O roteiro faz estranha experiência a partir de dois DNAs, um ilustre e mais distante, ‘‘O Falcão Maltês’’, outro mais recente e já abastardado, ‘‘El Mariachi’’. A esta mesma alquimia foram acrescentados toques de neo-noir anos 90, padrão Quentin Tarantino, e pitadas de comédia dourada hollywoodiana. E tudo em ritmo de road movie, às vezes esquizofrênico, às vezes de caso com a paródia. Mas sempre sem coragem para avançar, ousar em qualquer dessas direções em busca da transgressão que paira latente durante os 123 minutos de duração.
Tudo começa quando o marginal Jerry Welbach (Brad Pitt) quer se reconciliar com a noiva Samantha (Julia Roberts), consumidora de livros de auto-ajuda. Mas ele já está de partida para o México, encarregado pelo patrão mafioso de recuperar um antiga pistola – a mexicana do título. Mas há um problema: a tal arma carrega legendária maldição. E daí a outros problemas é um passo curto. Entre eles o sequestro de Samantha por um matador profissional (o ótimo James Gandolfini, o mafioso em crise existencial da familia Soprano), contratado para recuperar a pistola para outro interessado.
‘‘A Mexicana’’ , filme que até não começa mal mas que termina aos trambolhões, desperdiça não somente os talentos de Brad e Julia – há quem ainda conteste os dotes de atores de um e de outra –, mas também a possibilidade de manter um constante clima de diversão. Na tentativa de combinar múltiplos elementos, o diretor Gore Verbinski troca as bolas e elege uma narrativa aos saltos mas sem brio suficiente para levar o espectador a um universo delirante. Entre as escassas virtudes, uma a registrar: o filme não é veículo ditatorial para nenhum dos dois cachês envolvidos – em torno de US$ 20 milhões cada. Julia já provou ser mais competente na comédia, e deixa o personagem correr solto, sem estrelismos ou afetações. Já Brad Pitt é caso mais complicado, e uma rédea curta é sempre recomendável para evitar gestos e tiques. E entre as mais frequentes decepções, uma a lamentar com rigor: o tratamento discriminatório, vulgar, mesquinho dado aos personagens mexicanos, aqui estereotipados como imbecis, analfabetos, sujos, covardes e oportunistas. Já os americanos...
‘‘A Mexicana’’ ainda tenta, em seus excessivos minutos finais, oferecer ao público uma surpresa na pele de um convidado especial, ator tão popular em sua melhor época quanto os dois principais neste momento.

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