ENTRE A CIVILIZAÇÃO E A BARBÁRIE
PUBLICAÇÃO
domingo, 29 de outubro de 2000
Elisa Marilia Carneiro De Curitiba 
O conflito entre o mundo civilizado e a barbárie, como eco de uma tragédia contemporânea, é a linha condutora do filme Amélia, de Ana Carolina, que tem pré-estréia hoje, às 20 horas, na Cinemateca de Curitiba. Após a exibição, a diretora participa de um debate com a platéia.
O filme é uma ficção inspirada na turnê da cantora de ópera Sara Bernhardt um mito francês, considerada uma das mulheres mais importantes do início do século , ao Brasil, em 1905. Além do fato de que ela veio ao Brasil, como parte da turnê que incluia Buenos Aires e Nova York, nada é fiel a Sarah Benhardt no filme.
Segundo Ana Carolina, quando estava escrevendo um roteiro sobre três mulheres pobres nascidas no interior de Minas Gerais, no começo do século, não estava satisfeita, sentia que faltava alguma coisa. Foi quando li, por acaso, uma reportagem sobre a visita de Sarah ao Brasil, em 1905, quando apresentou A Tosca, no Rio de Janeiro. No final do terceiro ato, ao se jogar no fundo do palco, ela caiu e fraturou a perna, conta a diretora.
A reportagem dizia que a viagem havia sido um grande transtorno para a atriz. Além de se machucar, havia sido roubada. Ela queria esquecer a viagem, ao ponto de desejar excluí-la de sua biografia. É difícil explicar exatamente como as idéias surgem, mas ao ler a reportagem pensei em colocar aquelas três mulheres rústicas mineiras em contato com Sarah Bernhardt.
A ligação entre elas se dá por intermédio de uma fictícia camareira brasileira (Marília Pêra) que teria servido a atriz durante 20 anos em Paris, Amélia. No dia do desembarque, Amélia morre de febre amarela e a lendária atriz passa a conviver com as exóticas irmãs de sua auxiliar.
Meu principal interesse era a forma com que Sarah era vista, e não sua biografia. Imaginei que se tratava de uma mulher em momento de fragilidade e de crise de identidade, de carreira, de idade, de dinheiro. E por esses motivos teria aceitado o conselho de Amélia e realizou uma viagem tão longa e desconfortável ao Brasil, onde já estivera 20 anos antes, no auge da carreira, descreve Ana Carolina.
Quando Amélia morre, Sarah encontra-se então sem apoio, perdida, sem falar português, sem entender coisa nenhuma, em contato direto com as irmãs da camareira morta, com costumes completamente diferentes, hábitos conflitantes e de uma simplicidade sem parâmetros.
Sarah exercita o poder. Ela representa o poder inerente de sua posição no mundo. Por isso, várias vezes pode que as brasileiras calem a boca. Ao lado do poder nasce a falta de entendimento entre as pessoas. Quem tem poder, tem muita dificuldade de ouvir os outros. Eu diria que a questão do desentendimento é o ponto central do filme.
Os aspectos contemporâneos nesse embate entre o mundo civilizado e o terceiro mundo fazem referência à globalização. Todo mundo é igual porque usa o mesmo tênis e está conectado na Internet? Ao mesmo tempo, as diferenças nunca foram tão grandes. Um toque no mouse e imediatamente as pessoas de todo o mundo seriam iguais? Eu acho que não, afirma Ana Carolina.
Amélia é uma produção da Crystal Cinematográfica 1999, feita em 35 milímetros. No elenco estão Marília Pêra, atriz convidada para fazer o papel de Amélia, Beatrice Agenin como Sarah Bernhardt, Míriam Muniz como Francisca, Camila Amado como Oswalda, Alice Borges como Maria Luiza, Betty Goffman como Vicentine, Duda Mamberti como Lano, e Pedro Paulo Rangel como Salustiano. O filme traz ainda atores e atrizes consagrados como Cristina Pereira, Marcela Cartaxo, Otávio III, Pedro Bismark e Xuxa Lopes. O figurino é de Kalma Murtinho, a cenografia de Roberto Maineri, a música original de David Carbonara e a fotografia de Rodolfo Sanchez.
Amélia Pré-estréia do filme dirigido por Ana Carolina, hoje, às 20 horas, na Cinemateca de Curitiba (Rua Carlos Cavalcanti, 1174). A partir do dia 3 de novembro, Amélia entra em cartaz no Cine Luz (Rua XV de Novembro, 822 telefone 41 322-1525, ramal 2261), em Curitiba, com sessões às 15, 17 e 21 horas.


