Filha do casal de atores Monah Delacy e Geraldo Matheus, fundadores do Teatro de Arena, Christiane Torloni frequenta os palcos desde o ventre de sua mãe, que atuou até os oito meses de gestação. Além de ter imortalizado papéis em grandes produções teatrais e cinematográficas, desde os anos 1970 vem colecionando personagens inesquecíveis como a Jô Penteado, da novela "A Gata Comeu" (1985); Dinah, de "A Viagem" (1994); e Teresa Cristina, de "Fina Estampa" (2011), dentre várias outras.

Contemplada com dezenas de prêmios, incluindo o Prêmio Shell, Troféu APCA e o Grande Prêmio do Cinema Brasileiro, a atriz que nasceu em São Paulo vive um dos maiores desafios da carreira. Torloni tem dado vida à maior diva da ópera de todos os tempos, Maria Callas, no espetáculo “Master Class”, que está em cartaz no Teatro Ouro Verde, em Londrina, neste final de semana.

Artista engajada que fez participação histórica no movimento “Diretas Já” pelo fim da ditadura e atualmente luta pela preservação da Amazônia, Torloni concedeu uma entrevista exclusiva à Folha 2. Entre os temas abordados, a atriz falou sobre seu ativismo ambiental e a importância do legado da arte para o País.

Como foi o seu processo de composição da personagem Maria Callas?

Você se prepara para um trabalho a sua vida inteira. Você é o conjunto de todos os trabalhos que já fez e acrescenta. Como formação de atriz, a gente costuma fazer aula de canto, aula de dança, aula de artes marciais, enfim, seja o que for. Para que, quando os trabalhos cheguem, você já ter, de alguma maneira, passado por aquela informação.

Quais traços da personalidade dela mais chamam sua atenção?

Callas se expressava com ironia, tinha um humor sofisticado, inteligente. Tem uma questão, talvez seja o que mais me inspire, é que ela não tinha uma relação com alguém que a desafiasse. Era Callas que desafiava Callas. Isso é uma outra maneira de ver tudo. A maioria das pessoas tem o desafio de fora para dentro. Ela não, vinha de dentro dela. É muito incrível porque quando você se aproxima da Callas, a história dessa mulher é uma história de superação, desde o nascimento dela, pois ela foi recusada pela mãe nos primeiros dias. Então, esse é um espetáculo para você se apoiar em alguém que, mais do que tudo, não desistiu do seu belo.

Christiane Torloni: "A arte é uma ciência política, é um fórum por onde passam as grandes ideias, onde se toca a filosofia, onde há liberdade de pensamento. Acho que é disso que tantos têm medo"
Christiane Torloni: "A arte é uma ciência política, é um fórum por onde passam as grandes ideias, onde se toca a filosofia, onde há liberdade de pensamento. Acho que é disso que tantos têm medo" | Foto: Christiane Torloni/ Divulgação

Como ativista ambiental, que análise faz da crise mundial gerada pela devastação da floresta?

Nos últimos dias, a Amazônia tem sido assunto dos principais jornais do País, por motivos ruins, o que me deixa triste. Temos que ter urgência, porque estamos atrasados 50 anos. Isso é que eu quero mostrar com o filme 'Amazônia - O despertar da Florestania' (a produção mostra a experiência da atriz com o abaixo-assinado que reuniu 1,2 milhão de assinaturas pela preservação da Amazônia, um recorde no País) que estreou nos cinemas este ano e, hoje, pode ser visto no NOW, Vivo Play e Oi Play. Definitivamente a gente tem que acordar e tem que fazer. Ainda mais agora que o cenário político está muito mais ameaçador, principalmente para essa questão, porque o meio ambiente e a educação andam de mãos dadas. E o Brasil vive num planeta em que, se ele não for economicamente sustentável, está fora dos mercados. O Brasil vai andar para trás agora, depois de todas os sacrifícios feitos? O que falta para a Amazônia é uma política de Estado, não de governo. O último estadista que vimos no Brasil foi Fernando Henrique Cardoso. Nem tudo que ele fez foi ruim ou bom, mas se não fosse por sua iniciativa firme, hoje a Amazônia estaria mais desprotegida. A Amazônia é maior que um partido. Não tem nada mais importante para a gente que a nossa casa, o nosso ninho, ele que agasalha. Só que a Amazônia é o ninho comum, como disse o papa Francisco.

O que representa o teatro para você?

A mamãe (Monah Delacy) é atriz e atuou grávida até uns sete ou oito meses. As minhas primeiras babás eram as camareiras. Então, o teatro para mim é o meu primeiro playground porque é o meu lugar natural até de reflexão. Lá fui amamentada, ninada, influenciada e inspirada.

Christiane Torloni: "A arte é uma ciência política, é um fórum por onde passam as grandes ideias, onde se toca a filosofia, onde há liberdade de pensamento. Acho que é disso que tantos têm medo"
Christiane Torloni: "A arte é uma ciência política, é um fórum por onde passam as grandes ideias, onde se toca a filosofia, onde há liberdade de pensamento. Acho que é disso que tantos têm medo" | Foto: Christiane Torloni/ Divulgação

Como avalia o papel da arte diante do atual cenário nacional?

Acho que qualquer gesto de arte, hoje, é um gesto de resistência. Tanto para nós, para nossos filhos, para nossos netos porque a cultura significa nossa identidade. É impressionante um País que tem uma manifestação cultural inequívoca como o Brasil estar vivendo um momento quase medieval e colocando em dúvida valores básicos que foram conquistados com o sacrifício de muita gente. De repente, se duvida desse legado, do lugar que a arte e a cultura tem? A quem interessa essa dúvida? Vai se parar de produzir cultura durante quatro anos? É um grande retrocesso intelectual. A arte é uma ciência política, e afinal não tem como não ser. É um fórum por onde passam as grandes ideias, onde se toca a filosofia, onde há liberdade de pensamento. Acho que é disso que tantos têm medo.

Serviço:

Espetáculo “Master Class”, com Christiane Torloni

Quando – Sábado, às 21 horas, e domingo (29), às 20 horas

Onde - Teatro Ouro Verde (R. Maranhão, 85)

Quanto - R$ 50,00 (meia-entrada) e R$ 100,00 (inteira)

Pontos de venda - www.diskingressos.com.br ou www.masterclassturne.com.br

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