Aos 14 anos, o lavrador Nelson Inácio teve o facão como o seu principal instrumento de trabalho para o corte da cana-de-açúcar. Ele parou de estudar na 3 série do Ensino Fundamental para poder ajudar nas despesas de casa. Seu pai também foi canavieiro e, assim, ele deu continuidade ao trabalho duro, de sol a sol, que garantiu e ainda garante a sobrevivência da sua família.
Aparentemente, a sua história não é muito diferente da de muitas famílias da região de Porecatu que subsistem das atividades relacionadas à produção de cana para usinas da região. Mas há um detalhe: hoje, aos 35 anos, ele está cursando a 4 série no curso de Educação de Jovens e Adultos (EJA) e suas duas filhas, uma de 9 e outra de 14, também não pararam de estudar. Sonham em ser, respectivamente, enfermeira e veterinária. ''E, se depender do meu esforço para continuarem os estudos, vão chegar lá'', afirmou o pai orgulhoso, ciente da importância dos estudos para uma perspectiva de melhoria de vida.
Sua filha caçula Carolina, de 9, é aluna da 3 série da Escola Rural Municipal Hélio Pedro Vanzella, que é uma referência na região porque desde 2005 oferece ensino de tempo integral. Depois de cumprir o conteúdo curricular, todas as crianças têm à sua disposição um leque variado de atividades que tornam a escola um espaço criativo e prazeroso. As aulas ocorrem das 7h30 às 16h30.
Rodeada por eucaliptos e árvores típicas da região, a escola de estrutura modesta, mas mantida com cuidado e capricho, no meio da Fazenda Central, se transforma diariamente em um verdadeiro celeiro de talentos. Conforme a vocação que de forma natural demonstram, as crianças escolhem as atividades que querem fazer no contraturno.
Tem capoeira, aula de dança, teatro, pintura, oficinas de leitura de jornal, percussão (Arte na Lata), coral, inglês, esportes e artesanato. Na Arte na Lata, embalagens plásticas de óleo e tinta se transformam em divertidos instrumentos musicais e, bem afinados, os alunos já apresentaram o hino da cidade em ritmo de batucada em solenidades.
A escola foi o projeto-piloto para a implantação da educação em tempo integral em Porecatu, que desde o ano passado se estendeu a todas as sete escolas municipais da cidade - duas de educação infantil e cinco que incluem Ensino Fundamental (três urbanas e duas rurais). Segundo a secretária municipal de Educação, Risoleta Araújo Paduan, a idéia de implantar a educação integral partiu da preocupação com o alto índice de repetência dos alunos verificado em avaliação em 2005.
Neste mesmo ano também começou a ser aplicado nas escolas municipais o Programa Educacional de Resistência às Drogas (Proerd), sob a coordenação do sargento Vanderlei de Oliveira Ruis, que está conseguindo vários benefícios junto aos alunos como melhoria no comportamento, mais atenção às aulas e motivação.
''Tínhamos que tomar uma atitude e decidimos testar o ensino de tempo integral. Deu resultado e já podemos comemorar a redução de mais de 60% no número de repetentes'', comentou Risoleta, que no início do novo programa chegou a enfrentar 11 processos judiciais de pais que foram contra a medida inovadora, que foi aprovada pelo Conselho Estadual de Educação.
Já na área rural, a novidade foi bem recebida. ''Achei muito melhor. Minhas filhas não faziam nada depois da aula e agora fico mais tranquilo sabendo que elas estão aprendendo muitas coisas boas'', comentou o lavrador Inácio, que agora está cursando a 4 série, também na escola rural onde a filha mais nova estuda - a única escola do Núcleo de Londrina que oferece EJA na área rural.
A lavradora Neuza Ferreira dos Santos, 45 anos, moradora da Vila Rural, também elogia a escola em tempo integral. Para ela, o filho Fábio, de 13, está tendo mais oportunidades de ter uma vida melhor que a dela estudando nesse sistema de ensino. Tendo apenas concluído a 1 série, contou que aos 8 anos teve que parar os estudos para ajudar a família. Agora, está cursando a 2 série no EJA que a escola rural oferece. ''Estou muito contente e sempre falo para ele que hoje em dia precisamos de muito estudo para conseguir uma vida melhor. Nunca passou pela minha cabeça pedir para ele parar os estudos para trabalhar'', destacou.
A diretora da escola, Márcia Aparecida Francisquete Dias, que há nove anos está à frente da instituição, disse que a educação em tempo integral era um sonho antigo que felizmente agora se concretizou. ''Buscamos oferecer aos nossos alunos a mesma qualidade de ensino que os alunos da cidade possuem. Sabemos do potencial deles e oferecemos oportunidades para eles se desenvolverem. Além disso, temos uma boa equipe pedagógica que torna isso possível'', ressaltou Márcia.
Atualmente a escola atende 204 alunos (incluindo berçário, Ensino Fundamental e alunos jovens e adultos do EJA). O prédio da escola foi construído em 1952 e hoje está passando por algumas reformas. No Paraná, além de Porecatu, o município de Apucarana também mantém toda a rede municipal em tempo integral. Curitiba e Pato Branco oferecem o mesmo sistema em parte das escolas municipais.

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