ENSINO - Para gostar de ler
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terça-feira, 22 de fevereiro de 2005
Ana Paula Nascimento<br> Reportagem Local 
Em um país em que a leitura ainda é um desafio, nada mais urgente do que reformular o aprendizado da leitura na sala de aula e valorizar os novos suportes que a modernidade oferece, como a internet. Essa é a visão defendida por um dos maiores especialistas do assunto, o professor de Literatura da Unesp, João Luís Ceccantini, da Unesp de Assis, que tem trabalhos sobre literatura e mercado e literatura juvenil, além de livros didáticos. Em Londrina, ele e Edmir Perrotti (leia texto nesta página), também especialista no assunto, recentemente participaram de banca de mestrado do curso de Letras da Universidade Estadual de Londrina (UEL).
Ceccantini defende que é impossível o desenvolvimento do gosto da leitura quando esta não vem acompanhada da produção de textos no Ensino Fundamental. E não é um simples ''produzir'', ele precisa vir embasado com questionamentos sobre o assunto para que o aluno ''cresça sendo capaz de interpretar o texto, dar sentido a ele, fazer uma análise de valores'', afirma o pesquisador. Principalmente nos dias de hoje onde cada vez mais os concursos públicos, além dos vestibulares mais conceituados, valorizam os testes com interpretações de texto. ''Parece simples, não é mesmo? Mas ler é trabalhoso, não é natural, é uma tarefa árdua, que exige uma série de ferramentas'', comentou o professor.
Apesar de concordar com a ''crise da leitura'', Ceccantini acredita que a ela precisa ser relativizada. ''No caso dos jovens, principalmente, não acho que eles 'não estejam lendo', propriamente dito. Talvez não estejam lendo livros da literatura clássica. São mais consumistas da produção da indústria cultural. E, por outro lado, nunca se escreveram tantas 'cartas' como agora, com a chegada da internet. Acho isso positivo.''
Segundo ele, durante muitos anos as práticas de escolarização da leitura ficaram em torno do livro e não houve prática de texto. Não se acostumou a perceber as intenções do autor, a perceber o seu objetivo. Mas destaca que não é justo colocar na escola toda a culpa pela má qualidade da leitura. ''Muitas vezes as escolas fazem o trabalho corretamente, mas o aluno não tem modelos de leitores em casa. Fica sem referência e cresce apenas valorizando a linguagem oral'', destacou Ceccantini.
Na opinião do professor, a importância da leitura está intimamente ligada com a capacidade de discernimento da pessoa, que envolve julgamento de valores, lógica, memória e afetividade. ''Fatores neurológicos, visuais, ideológicos e linguísticos fazem parte do processo de leitura. É um exercício que ajuda a nos posicionar como sujeito do processo histórico, que leva ao nosso desenvolvimento como cidadãos. Até para ler um manual informativo é preciso saber ler com eficiência.''
Outro fator bastante abordado por Ceccantini é necessidade da figura do mediador da leitura, que pode ser o professor ou os pais, de ajudar o jovem leitor a selecionar a informação, aprendendo a hierarquizar, atribuir valor e organizar a informação.
Atualmente Ceccantini também trabalha como editor da Editora da Unesp que está lançando a Coleção Paradidáticos. São sete volumes que abordam de forma objetiva assuntos das áreas de ciências e cultura. Entre os temas, novas tecnologias, sementes transgênicas e biologia celular. O visual é atrativo para jovens e vem no formato semi-pocket, com até 120 páginas. A editora também está lançando o Dicionário de Português, com aproximadamente 60 mil verbetes, organizados por grupo de especialistas da Unesp de Araraquara. Mais informações pelo site www.editoraunesp.com.br.


