É voz corrente - e nem sempre voz ativa - que a escola, ao lado da família e de outros entornos de afinidade emocional e de conhecimento, é o espaço físico e temporal em que se decide boa parte da vida dos indivíduos. Se alguém não enxerga isto com a necessária clareza, convém acrescentar à sua base de informações as imagens de ''Entre os Muros da Escola'', o filme francês de Laurent Cantet que levou ano passado, por unanimidade, a Palma de Ouro no Festival de Cannes e que começa a ser exibido hoje na cidade (confira a programação de cinema na página 2).
''Entre os Muros da Escola'' se passa justamente aí, ''entre os muros'' - este é precisamente o título original - de uma instituição pública de ensino num bairro periférico de Paris. O filme narra as relações de um professor de Língua Francesa com suas duas dezenas de alunos, adolescentes na faixa dos 15-16 anos, ao longo de um ano escolar.
Cantet utilizou como ponto de partida as experiências recolhidas em sala de aula por ex-professor de escola pública, François, Bégaudeau, que se integrou a esta fascinante aventura cinematográfica como escritor-autor do livro que deu origem ao projeto, como co-roteirista e como ator: ele mesmo interpreta (e com ótima presença) o professor protagonista. Desta forma, ele se converteu numa espécie de diretor-adjunto, em contato direto com o heterogêneo e convulso grupo de alunos de diversas raças e ascendências familiares com que tem que lidar.
''Entre os Muros da Escola'' é do início ao fim um prodígio de montagem que recolhe na sala de aula, com elegante precisão, os pormenores de uma batalha dialética e vital sem solução. A narrativa se situa com oportuníssima ambiguidade em um sugestivo ponto de interseção entre o documental e a ficção, alimentando de significado dramático e de realidade uma e outra dimensão.
O filme recria um microcosmo que serve de espelho e de caixa de ressonância daquilo que se passa lá fora, do outro lado dos muros da escola. Exatamente neste nosso mundo, fazendo eco dos temas capitais sobre os quais se articula, se crispa se constrói ou se desmorona a sociedade. Desde a crise de valores, de autoridade ou de respeito mútuo até a multiplicidade de culturas, passando pelas dificuldades de integração ou pela exclusão dos imigrantes de até segunda geração.
Embora falando línguas diferentes, professores de todas as partes se reconhecerão nas dificuldades, na abnegação e no compromisso de quem se arrisca inclusive a transgredir normas para aproximar-se de seus objetivos, de seus alunos e inclusive dos pais. Todos, sem exceção, deveriam ver ''Entre os Muros da Escola'' para entender a universalidade de um debate no qual simplesmente se decide o futuro.

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