Há registros de que o primeiro haicai feito no Brasil teria sido escrito em 1908, a bordo do Kasato-maru, navio que trouxe a primeira leva de imigrantes do Japão. De lá para cá, a poesia de origem oriental cativou gerações de praticantes, tanto entre descendentes da colônia quanto entre seus anfitriões.
Na última década, a cidade de Bandeirantes (PR) virou um celeiro de haicaístas do Norte Pioneiro. Uma das entusiastas dos versos que falam da passagem das estações é a professora voluntária Neide Rocha Portugal, de 64 anos, 18 deles dedicados a escrever e divulgar os poemas de três versos e 17 sílabas.
"As crianças gostam de haicais porque eles falam de coisas concretas, de elementos que podem ser observados por elas. O haicai fala da natureza, lançar um novo olhar sobre ela. É preciso estar espiritualmente de boa vontade, desprovido de apegos materiais para captar as sensações, como fazem as crianças", diz.
Nascida em Cornélio Procópio (PR), Neide adotou Bandeirantes como sua cidade do coração. Com formação em agronomia e psicopedagogia, já deu aulas em escolas públicas e privadas. Desde 2005 ensina haicai na Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (Apae) do município. "Levo os cadeirantes para o pátio e lá ficamos observando o vento, as frutas, toda riqueza da flora. Depois todos são estimulados a escrever", explica.
A entidade atende a 155 alunos da cidade e da região. Ao longo dos anos, alguns conquistaram troféus em concursos de haicais. "Há meninos e meninas que foram meus alunos e hoje estão terminando a faculdade", conta. Neide também tem sido agraciada com premiações. "Durante nove anos consecutivos fiquei entre as cinco primeiras colocadas no Tanabata Matsuri, festival das estrelas que acontece todo mês de julho em São Paulo. São dois dias de festa no bairro da Liberdade. Os haicais são feitos na hora e depositados numa urna. Depois a comissão julgadora escolhe os melhores", explica.
Há duas semanas, ela voltou à capital paulista para receber um troféu da Associação Literária Nikkei Bungaku do Brasil. Motivo: o trabalho de divulgação do haicai desenvolvido no Paraná e a publicação de três livros em um ano. Os livros "Memórias, Contos, Crônicas & Haicais", "Cantiga do Sarilho" e "Penúltimas Trovas" saíram simultaneamente nesta temporada, sem patrocínio público ou privado.
"Embora escreva há quase 20 anos, decidi publicar agora por causa da cobrança dos amigos", salienta. "Ainda acredito no livro, apesar da internet. Todo livro é uma escola em qualquer área e, por isso, nunca vai sair de moda. Escrevo todo dia, todo dia há algo na natureza para contemplarmos: uma formiguinha, um passarinho, uma gota de chuva que cai. É um instante que você capta que não tem volta, que é movido a alma e se manifesta através do sexto sentido. É um flash, é o aqui e agora."
Segundo ela, a paixão por esse gênero literário tem raízes na infância. "Sempre gostei de cultura, da ética e do modo de viver dos japoneses", assinala. "Quando pequena, desenhava a bandeira do Japão e o Fujiyama [monte Fuji]. Estudei o idioma. Fui atrás de traduções de haicais e das biografias de Matsuo Bashô (1644-1694), o inventor do haicai. Queria conhecer as viagens que ele fez de norte a sul do Japão, das trilhas que deixou. Mais tarde, descobri a obra de seus herdeiros e cheguei até Nenpuku Sato (1898-1979) que desembarcou no Brasil a bordo do Kasato-maru. O que faço é semear essa semente". Ao final da entrevista, Neide revela que mantém cerca de seis mil haicais inéditos na gaveta, prontos para ser publicados em futuros livros.

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