Ensaísta lança livro sobre adaptação da obra de Nelson Rodrigues para o cinema
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sexta-feira, 18 de fevereiro de 2000
Por Luiz Zanin Oricchio 
São Paulo, 19 (AE) - Nélson Rodrigues é um fenômeno de eterno retorno na cultura brasileira. Agora é o ensaísta e professor da USP Ismail Xavier quem se debruça sobre a obra do mais carioca dos dramaturgos (embora nascido no Recife). Conhecido por seus rigorosos e inovadores ensaios devotados ao cinema nacional, Ismail passou os últimos tempos ocupado em levantar o total de adaptações cinematográficas baseadas na obra de Nélson Rodrigues. Chegou a um total de 20 longas-metragens, tirados de peças, romances ou contos do autor. A primeira em 1952, "Meu Destino É Pecar", de Manuel Peluffo; a mais recente foi terminada no ano passado e ainda está inédita em São Paulo, "Gêmeas", de Andrucha Waddington.
Não é de hoje que Ismail se interessa pelo universo de Nélson Rodrigues. Essa curiosidade vem rendendo material que tem sido publicado, esporadicamente, em revistas especializadas. Por exemplo, na revista "Novos Estudos Cebrap", apareceu o texto "A Falecida" e o "Realismo a Contrapelo", comentando o filme de Leon Hirszman. Na mesma publicação discutiu as duas adaptações de Nélson feitas por Arnaldo Jabor: "Toda Nudez Será Castigada" e "O Casamento". Em outro ensaio, comparou as duas versões da peça "Boca de Ouro", a de Nelson Pereira dos Santos e a de Walter Avancini. Para a revista norte-americana "Screen" mandou outro ensaio sobre o tema, intitulado "The Humiliation of the Father. Melodrama and Cinema Novos Critique of Conservative Modernization". Mais recentemente, reafirmou seu interesse na revista "Cinemais" com o artigo "Nélson Rodrigues no Cinema (1952-1998)", um esboço mais sistemático da periodização. Esses artigos funcionam como ensaios de vôo para a obra mais ampla que está por vir.
"Mas o livro que vai sair daí não será simplesmente aqueles do tipo "Nélson Rodrigues e o cinema", avisa o ensaísta em sua conversa com o Estado. Ou seja, livros que tomam um autor e discutem quais foram as suas adaptações mais fiéis, as piores, as melhores ou as mais inspiradas. Não.
Se não hesita em fazer julgamento estético das obras (mesmo o pesquisador tem as suas preferências), o objetivo de Ismail Xavier vai um pouco além. Pretende discutir como cada época teve o seu Nélson Rodrigues. Quer dizer, como cada tempo deformou (no bom sentido do termo) os originais do autor e os interpretou à sua maneira, segundo suas aspirações, segundo a sua possibilidade e necessidade.
A primeira adaptação de uma obra de Nélson Rodrigues é "Meu Destino É Pecar", que o escritor publicava sob o pseudônimo de Suzana Flag. Foi feita em 1952, por Manuel Peluffo
uma produção da companhia paulista Maristela. Segundo Ismail, essa tradução do romance-folhetim mostrou a vocação cinematográfica da obra de Nélson Rodrigues, embora a adaptação fosse pautada pela "inocência e o desajeito". Apesar de comprovada a afinidade entre a obra do dramaturgo e o cinema, a segunda versão só viria dez anos depois. "Na verdade, é a primeira adaptação séria, "Boca de Ouro", de Nelson Pereira dos Santos, encomendada por Jece Valadão, na época cunhado de Nélson Rodrigues", lembra Ismail.
O pesquisador recorda, também, que a versão de "Boca de Ouro" para a tela abriu um primeiro ciclo de interesse do cinema pela obra de Nélson Rodrigues. O descaso anterior poderia ser justificado pelo conservadorismo da sociedade brasileira e pela ação da censura, que teria desestimulado os produtores. "Com a onda de liberalização de costumes dos anos 60, abriu-se caminho para uma maior utilização do material dramatúrgico de Nélson Rodrigues pelo cinema", diz. Essa primeira onda rodriguiana se compõe de seis filmes produzidos de 1962 a 1966.
O destaque desse primeiro período fica, em primeiro lugar, com o próprio "Boca de Ouro", de Nelson Pereira dos Santos, "simples, na aparência, mas muito bem pensado se você for analisar de mais perto", diz. Mas também para "o tom mais sisudo de Leon Hirszman em sua leitura de "A Falecida". Ismail recorda também o expressionismo de "O Beijo", que Flávio Tambellini fez em 1964, e o apelo de mercado nas duas produções de J.B. Tanko, "Asfalto Selvagem" (1964) e "Engraçadinha depois dos 30" (1966), o primeiro mais interessante do que o segundo.


