Ensaios sobre a poesia contemporânea
PUBLICAÇÃO
sábado, 06 de janeiro de 2018
Célia Musilli<br>Editora da Folha 2 
O poeta, tradutor, crítico e ensaísta Claudio Willer lançou no fim de 2017 uma coleção de livros sobre a poesia contemporânea brasileira. Neles, analisa as obras de Floriano Martins, Péricles Prade, Miriam de Carvalho, Eunice Arruda e Celso de Alencar, criadores cuja produção passou a ser conhecida a partir dos anos 1960/1970. Alguns com trajetória e estética surrealistas, como Floriano Martins, outros que fazem uma releitura baudelairiana em sua obra, como Celso de Alencar, ou ainda poetas que se expressaram, ao mesmo tempo, com singeleza cotidiana e profundidade oriental, como Eunice Arruda falecida no ano passado - que foi revelada nos anos 1960 pelo emblemático editor Massao Ohno na coleção "Novíssimos," que teve o próprio Willer como um dos autores escolhidos para representar uma geração de talentos. Há ainda, os ensaios sobre a produção esotérica e de alta qualidade de Péricles Prade, além da poesia mágica e erótica de Miriam de Carvalho.
Os livros formam uma coleção idealizada e produzida pelo artista plástico paulistano Valdir Rocha, de quem também são os desenhos, esculturas e gravuras que estão nas capas de uma série que destaca conjuntamente a literatura e a arte. Os livros foram publicados pela editora Quaisquer.
Na entrevista a seguir, Willer fala sobre os ensaios nos quais os poetas são tratados como "demiurgos" ou pequenos deuses, a partir de uma perspectiva literária, num cruzamento de vidas e obras. Ao fim dos livros há poemas de cada um deles, o que dá ao leitor a noção da alta poesia abordada na coleção. Trata-se de arte sobre a arte, condição importante para quem se alimenta de conjuros, feitiçaria e literatura.

Na coleção de ensaios recém-lançada são abordadas obras de cinco poetas. O que eles têm em comum?
Serem tão diferentes não caberia como motivo de interesse? Cada poeta tem sua identidade ou personalidade própria. Dificilmente poderiam ser associados ao mesmo movimento ou corrente literária. Talvez a coleção se justifique por mostrar o caráter plural do valor literário. Um esoterista irônico como Péricles Prade, uma cultora da linguagem direta - mas cheia de subentendidos - como Eunice Arruda, uma provocadora erótica e esotérica ao mesmo tempo como Mirian de Carvalho, um iconoclasta, criador de torrentes de vigorosas metáforas extravagantes como Celso de Alencar, outro que parece ter uma capacidade infinita de criar metáforas como Floriano Martins - juntos, constituem-se em plêiade, constelação, porém feita de corpos celestes completamente diferentes.
Alguns ensaios analisam a poesia de um ponto de vista místico e filosófico, a ponto de você tratar o poeta como um "demiurgo". Qual o motivo?
A ideia do poeta como demiurgo é adotada, de modos distintos, por Péricles Prade e Floriano Martins. Está em Mirian, também. Seu jardim erótico é um mundo criado pela poesia. Essa concepção, reafirmada entre outros por Vicente Huidobro no século XX, é antiga. Tem a ver, penso, com magia. E com a ideia de que a linguagem é constitutiva da realidade. Breton: "Enunciados medíocres fazem a realidade medíocre." A realidade "feita" por poetas de qualidade situa-se no polo oposto.
Além de eu adotar paradigmas que me são familiares ou, em outros termos, falar daquilo de que entendo pode-se enxergar em poetas respostas à dessacralização ou desencantamento do mundo. Mas, insisto, de modos distintos. Eunice Arruda é pessimista, melancólica frente a esse estado de coisas. Uma nesga de luz está, para ela, no compartilhamento da poesia, na experiência coletiva de criação e transmissão. Celso responde com fúria iconoclasta, de modo veemente. Mirian me parece eufórica, alguém que está muito bem em seu jardim erótico e mágico, onde promove uma festa de símbolos.
A propósito, ainda, dos meus quadros de referência: como evitá-los diante de certos poetas? Tomemos Mirian: ela começa, de um modo provocativo, muito particular, invocando as correspondências de macrocosmo e microcosmo. O que faria eu? Ignoraria? Em Péricles, o assunto é simbologia, tarô, alquimia, astrologia, unicórnio, labirinto: deveria fingir que o cara não é mago? Nem que seja para interpretar que essa simbologia toda é metáfora da própria poesia, que a criação poética é magia. Não por acaso, Mirian e Péricles são interlocutores, ela examinou sua obra.
Qual a influência da geração de poetas dos anos 1960 e 70, enfocados na coleção, sobre os poetas da atualidade?
Influência? Menor do que deveria ser. Alguns já têm fortuna crítica, bibliografia sobre eles, bem estabelecida. Eunice, certamente, formou poetas. Péricles é estudado. Celso começa a repercutir, acho. Floriano, mais fora do Brasil, em Portugal e países de língua espanhola. Mirian, fiquei me perguntado: "Como é que pode, uma poeta dessa qualidade não ser mais comentada e estudada?"
Qual o lugar da poesia no Brasil hoje?
Continua presente. Há poetas, há leitores. Nota-se isso nestas nossas sessões, encontros, saraus. E na rede social. Poesia é historicamente minoritária.
A coleção de ensaios sobre a poesia contemporânea terá sequência?
Quem pode responder é Valdir Rocha, artista plástico e interlocutor de poetas, mentor e produtor dessa coleção. Houve uma feliz convergência de preferências, nessas escolhas.

Serviço:
Coleção "Contemporâneos"
Editora: Quaisquer
Autor: Claudio Willer
Preço: R$ 20,00 cada exemplar ou os cinco por R$ 100,00, mais a taxa de correio
Os livros estão à venda através do site www.editoracorrego.com.br , no link "outras editoras"
MÚSCULOS DE ANNIE LEIBOVITZ
A minha sombra passeia por dentro da tua.
A memória muda de nome para não ser reencontrada.
As ruas despedaçam a raiz de todos os caminhos.
O mar fica sempre longe.
A dor diz que lá não quer estar.
O medo prefere não revelar residência.
As horas acabaram de passar por aqui.
Era mesmo uma noite de sol quando nos despistamos pela penúltima vez?
Verão em Sidney, eu fui aprender a arte da rapinagem com as gaivotas e lá estavas.
O mundo não cessa de tornar-se teu.
(Floriano Martins,"Antes que a árvore se feche", 2011, p.412)
MATURIDADE
A imperfeição se desfaz
aos poucos. Do alquimista
se vê o coração maduro
na retorta: athanor pulsante
sangue imortal
redoma de veias
A geração de erros
se esvai: O parafuso perfeito
se encaixa no olho perdido do universo
E assim ficamos
como arco do caçador
que antes do voo da flecha
belo e bom se descobre
Bem-aventurados os da caça,
as guelras do peixe saboroso, as asas
do pássaro bêbado, as cores profanas
do animal agitado
(Péricles Prade, "Em forma de chama", Quaisquer, 2005, pág.23)


