Esta semana lembrei de "Ensaio Sobre a Cegueira", livro de José Saramago que foi levado ao cinema por Fernando Meirelles. O filme traz imagens claras, brancas, a cegueira representada por uma poeira, uma incrível substância que toma conta de uma cidade desencadeando uma epidemia. Tudo começa quando um homem, num semáforo, de repente fica cego e depois vão ficando cegos todos os que tocam nele. Logo a população inteira perde a visão. Todos são levados para um abrigo e aí as características primitivas do ser humano vão surgindo. Só uma mulher permanece lúcida e vê se desenrolar os sentimentos que são, na verdade, o tema da obra: poder, obediência, vergonha, ternura que afetam dominadores e dominados.

Lembrei-me da obra porque há momentos na história em que vemos se instalar uma cegueira 'branca', um estado de espírito exacerbado que acomete uma pessoa e vai contaminando as outras. O pathos - palavra grega que significa paixão,excesso, catástrofe - pode ser o impulso necessário para mudanças, como pode converter-se em doença.

Em momentos de exacerbação política presenciamos o pathos, quando nos empolgamos exageradamente, perdendo o senso crítico num ritmo alucinante de 'torcida.' Independentemente de qualquer escolha política - à direita ou à esquerda - muitas vezes presencio o excesso sem crítica. O estado que faz com que as pessoas percam a noção de julgar segundo seus próprios valores para criar uma corrente que beira à histeria.

No calorão de Brasília, quase aos 40 graus no último dia 1º, vi a multidão saudando o novo presidente do Brasil. Vi pessoas esperando em pé, por horas, na tentativa de ver aquele que converteram mais que em presidente, em ídolo. Eram adultos, homens e mulheres, gritando "mito, mito." O que só comprova minha teoria da coletividade em chamas. Alguns levaram crianças e algumas crianças, sinceras, demonstravam claramente sua exaustão no meio da multidão que teve momentos de empurra-empurra. Nas imagens da televisão uma garotinha chorava, um garoto puxava o pai pelas calças para ir embora. Aí surge o casal presidencial e o povo pede: "beija, beija", e me lembrei desses programas de auditório incitados pela ideia de "namoro ou casamento?" A multidão decerto quer sempre as duas coisas, mas precisa de provas.

As cerca de 150 mil pessoas que se acotovelaram nas ruas, viajaram de lugares distantes em caravanas, como romeiros que vão prestar homenagem a um santo.
Na posse de Dilma não foi diferente, com romarias, então vestidas de vermelho, cruzando o Brasil para acender velas à sua 'crença', tudo era devoção. O que me move é observar o pathos que remove o constrangimento de qualquer excesso. Desejo sempre uma maturidade política maior, uma racionalidade de escolhas que não me coloquem apreensiva sobre a segurança da criança no empurra-empurra ou sobre a falta de discernimento do velho que pedia a volta dos métodos de Brilhante Ustra.

O pathos é um conceito filosófico que representa também tudo o que se repete. Penso nas multidões que cercaram Getúlio Vargas, Collor, Lula e agora Bolsonaro. No meio desta recorrência espero que a história encontre um ponto de equilíbrio num terreno em que as paixões políticas deixam todos - independentemente de partidos ou ideologias - de parafusos soltos.

Depois da festa que venha a lucidez e o sol não cozinhe mais miolos. Não precisamos de um País em que uma parte está sempre contra ou a favor de alguma coisa, sem exercer a crítica necessária. Precisamos eleger estadistas, não ídolos.
Que a gente não sucumba às epidemias orquestradas por recursos de marketing que fazem a nação ensaiar coros que caem no vazio das torcidas. O pathos serve para a festa, mas não para a construção de uma nação que não se erige simplesmente por quem 'ganhou a partida'. O olho que teve a 'visão' do ídolo deve ter um olhar desenvolvido para um País justo que não é o desta ou daquela torcida, mas de todos. Vamos evitar a cegueira que, a cada quatro anos, cai sobre a história como poeira, metáfora da obra de Saramago.

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