Ensaio sobre a loucura
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 11 de março de 2010
Omar Godoy<br> Equipe da Folha 
A julgar pelo trailer esperto, ''Ilha do Medo'' é o primeiro terror estrelado por Leonardo DiCaprio. E foi justamente esse chamariz que levou o público americano aos cinemas, fazendo do longa o maior sucesso de bilheteria deste começo de ano por lá. Mas o filme, em cartaz a partir de hoje no Brasil, vai muito além dos sustos e reviravoltas que se espera desse tipo de produção.
Para começo de conversa, trata-se de mais uma obra do diretor Martin Scorsese, a lenda-viva por trás de clássicos como ''Taxi Driver'', ''Touro Indomável'' e ''Os Bons Companheiros''. Ou seja: não poderia ser um trabalho comum. Em sua quarta parceria com DiCaprio (a última foi ''Os Infiltrados'', vencedor do Oscar), o cineasta flerta com Hitchcock e entrega um suspense psicológico perturbador. Uma espécie de ensaio sobre a loucura, o desespero e a origem da violência.
Ambientado nos anos 50, ''Ilha do Medo'' narra a jornada de Teddy Daniels, agente do FBI às voltas com um caso na Ilha Shutter, um manicônio judiciário de difícil acesso. Acompanhado do parceiro Chuck Aule (Mark Ruffalo), ele deve desvendar o desaparecimento de uma interna cuja ficha criminal inclui o afogamento dos próprios filhos.
Logo na chegada, os policiais percebem que não são exatamente bem recebidos. A investigação segue confusa, principalmente porque os psiquiatras não colaboram como deveriam. Aliás, dois deles, ambíguos e assustadores, são vividos por atores sensacionais - Ben Kingsley (''Ghandi'') e Max von Sydow (''O Exorcista'').
A trajetória de Teddy vai sendo apresentada aos poucos, sempre de maneira difusa. Veterano da Segunda Guerra, ele traz na memória os horrores que presenciou ao libertar os prisioneiros de um campo de concentração nazista. E como se não bastasse o trauma de combate, o personagem ainda tem de superar a morte da mulher, vítima de um incêndio criminoso. Estamos diante, portanto, de um homem desorientado, que carrega mais mistérios do que se pode pensar.
A partir daqui, contar qualquer outro detalhe da trama é estragar a surpresa do espectador (principalmente aquele que tem prazer em tentar descobrir o final da história). De qualquer forma, a qualidade de ''Ilha do Medo'' não está na solução do roteiro - que talvez nem seja tão mirabolante assim.
Seu ponto forte é a carga dramática dos últimos 40 minutos e todas as camadas e subtextos que esse desfecho deixa no ar. Some-se a isso toda a genialidade da direção de Scorsese e temos um grande filme, capaz de entreter e fazer refletir ao mesmo tempo.


