Rio, 06 (AE) - O ator e diretor Enrique Diaz tem se dividido entre os bandeirantes brasileiros do século 17 e um modernista da primeira metade deste século. Enquanto vive o mameluco Aimbé, na minissérie "A Muralha", da TV Globo, ensaia com seu grupo, a Cia. dos Atores, o espetáculo "O Rei da Vela"
de Oswald de Andrade, um dos mentores da Semana de Arte Moderna. A estréia está marcada para sexta-feira no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB).
A peça é um clássico do teatro brasileiro que teve pouquíssimas montagens profissionais. Uma delas, a do Teatro Oficina, com direção de José Celso Martinez Corrêa, se tornou lenda (influenciou até o tropicalismo de Caetano Veloso e Gilberto Gil) e intimida outros encenadores. Mas Diaz, que já havia montado "A Morta" (outro texto de Oswald de Andrade, também considerado difícil), enfrenta esse desafio com tranquilidade.
"Não foi um caso de amor à primeira vista, pelo contrário, relutei muito quando os atores me disseram que queriam montar O Rei da Vela este ano", conta ele. "Aparentemente, é um autor difícil, cheio de falhas, mas, à medida que você se relaciona com seu texto, encontra os meandros onde Oswald se revela e o que parecia imperfeição se torna um sinal de sua paixão", continua. "A partir daí, você se permite mudar o que foi escrito para ficar mais fiel ao autor."
Referência - Enrique Diaz era recém-nascido quando "O Rei da Vela", do Oficina, fazia furor, mas reconhece que sua herança perdura até hoje na cultura brasileira. Para remontar a peça, preferiu não ter muita referência do espetáculo que ficou na história, até para criar o seu. "Só vi uns trechos do filme sobre a peça de 1967 e conversei um pouco com o Martinez", contou o diretor.
Diaz também agiu com total liberdade diante do texto, escrito em 1933, pouco depois de Oswald de Andrade perder a fortuna deixada pela família e converter-se ao comunismo. "Cortei tudo que dava o tom excessivamente marxista, que descrevia o modus operandi do capitalismo, para ficar só a dramaturgia", garante ele, que também está pensando em acrescentar um epílogo à peça, como um pós-final feliz dos três personagens principais, Abelardo I (vivido por Marcelo Olinto), Abelardo II (Marcelo Valle), e Heloísa de Lesbos (Drica Moraes, de volta ao grupo, após um afastamento para fazer novela). "Acredito que a peça é mais atual hoje que quando foi escrita, nos anos 30."
"O Rei da Vela é um misto de farsa, comédia e tragédia
que conta a história de Abelardo I e Abelardo II, dois capitalistas que se apaixonam por Heloísa de Lesbos, aristocrata falida que vê no casamento a redenção financeira. A história se passa em meio a crítica social e política ao sistema capitalista e ao que Diaz chama de "sadomasoquismo das relações entre ricos e pobres". Mesmo com a queda dos governos comunistas, o diretor considera o texto atual.
"A hegemonia do capitalismo tornou esse tipo de relação muito mais acentuado", observa. Para Diaz, a geração que era jovem nos anos 60, época da primeira montagem, viveu o dualismo capitalismo/socialismo com mais intensidade e, por isso, a peça apontava o vilão e a forma de combatê-lo, sempre politicamente. "Mas a nossa geração não quis abrir mão do prazer individual e juntou a militância com a arte lúdica, feita com alegria."
Grupo coeso - Para contar a história, ele entregou a cenografia ao diretor mineiro Gabriel Vilella, do Grupo Galpão, de Belo Horizonte, que juntou mais de 10 mil notas antigas de cruzeiro para forrar as paredes do palco e a maioria dos objetos de cena. Vilella esculpiu também mãos e bocas em cera ("são os órgãos do corpo humano que mais identificam a usura e a ganância", explica Diaz) e criou velas em formatos inusitados. Os figurinos são de Marcelo Olinto, que também protagoniza a peça como um dos Abelardos.
"Nosso modo de trabalhar é assim", avisa Enrique Diaz. "O ator principal faz o figurino, eu aceito as sugestões deles e todos saem para fazer trabalhos fora e aproveitar aqui dentro o que aprendemos nessas experiências." No caso de Gabriel Vilella, o contato veio quando Diaz trabalhou num espetáculo dele e os dois estavam ensaiando trabalhar juntos desde então. "Ele, na verdade, fez o cenário de longe porque desenhou e explicou sua concepção e foi a Londres, onde deve encenar "Romeu e Julieta" no Globe Theatre, o mesmo de Shakespeare."
Em O Rei da Vela", três atores/músicos participam tocando ao vivo e acompanhando uma trilha pré-gravada. Diaz conta que, quando optou por fazer um espetáculo musical, encarregou Cláudio Olivetto da pesquisa e entregou a direção musical a Marcelo Neves. O resultado foi uma trilha sonora em que cabem o brasileiríssimo Noel Rosa e a existencialista Juliette Gréco, música pré-gravada e ao vivo. "Tem um pouco de teatro de revista, de programa de auditório e muitos elementos da cultura de massas", avisa o diretor.
Ele, no entanto, fugiu ao modelo tropicalista criado por José Celso Martinez que ficou no imaginário de todo o público. "Preservo a espinafração, o escracho e a exuberância de Oswald de Andrade, mas não existe no espetáculo a explosão tropicalista da montagem anterior", diz Enrique Diaz. "O texto tem farsa, lirismo, filosofia, humor e procuramos misturar todos esses elementos tal como foram criados, mas com uma linguagem nossa."
A peça é totalmente financiada pelo CCBB, patrocinador da maioria dos espetáculos da Cia. dos Atores. Apesar do sucesso de público e crítica que o grupo conhece desde sua fundação, todos os seus membros se mantêm também com outros trabalhos fora. "Nossa próxima meta é ter uma sede e um patrocínio para o grupo, a exemplo do que ocorre com o Corpo, de Belo Horizonte", diz Diaz. "Só assim poderemos desenvolver melhor nossas pesquisas e nossos espetáculos."

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