ReproduçãoOswaldo de Andrade: deliciosas crônicas reunidas em ‘‘Telefonema’’Você liga a TV e dá de cara com aquele sujeito feio, barriga de chope, copo na mão, sorriso de bêbado, num sanduíche de moçoilas saltitantes, e descobre, aterrorizado: é carnaval. De novo. Antes de ser invadido pela temível sensação de que todos no mundo se estão esbaldando, menos você, que odeia bailes, escolha abaixo o livro que lhe fará companhia na folia. Podem não substituir a passista da Mangueira ou o modelo que desfila pelo Salgueiro, mas merecem igualmente sua atenção.
Aproveite o feriado para pôr a gastronomia em dia. Eu Sou o Chef: A Vida e as Melhores Receitas de Smith Duquesne (Casa Jorge Editorial, 162 páginas, R$ 15,00), de Ciro Bianchi Ross, é uma pequena iguaria literária. A lista de clientes do chef cubano Duquesne é uma aula de história do século 20: Alejo Carpentier, Chaplin, Salvador Dalí, Edith Piaf, Salvador Allende, Nat King Cole e Fidel Castro. Lembranças deliciosas como ‘‘Nikita Kruchev comia como um rústico, não usava guardanapo e falava com a boca cheia’’ unem-se às suculentas receitas de Dusquene.
Memórias que nos interessam mais de perto são o centro de Couraça na Alma (Editora Expressão e Cultura, 488 páginas, R$ 35,00), do pintor Emmanuel Nery, filho do célebre casal Ismael e Adalgisa Nery e enteado do homem forte de Vargas, Lourival Fontes. A infância de Emmanuel mistura-se com intrigas palacianas - entre elas a espionagem nazista da mulher de Lutero Vargas -, a vida política de JK, JQ e Goulart, e com Dalí e Portinari.
Fofocas que fariam a delícia de Oswald de Andrade, cujas obras completas acabam de ganhar seu último volume: Telefonema (Editora Globo, 491 páginas, R$ 45,00), reunião de mais de 500 crônicas, escritas entre 1945 e 1954 (organizadas por Vera Chalmers), falando sobre literatura e política. Publicadas no Correio da Manhã, dão um panorama personalizado do Brasil visto por São Paulo.
Outro olhar, mais contemporâneo, sobre a realidade do País tem Betinho em A Lista de Aílce (Companhia das Letras, 142 páginas, R$ 12,50). Estréia do irmão do Henfil como cronista, o livro é um bonito mergulho no passado. Querendo saber o destino das pessoas que conhecera, pediu à prima Aílce que lhe mandasse notícias da cidade mineira onde passou sua infância. A partir da lista recebida, Betinho criou miniaturas que discutem o cotidiano, a vida e a morte.
ReproduçãoHerbert de Souza tira fatos do baú da memória em ‘‘A Lista de Aílce’’
É também numa cidadezinha, da França, que se passa Jean de Florette (Pontes Editores, 290 páginas, R$ 25,00), de Marcel Pagnol, levado às telas, em 1985, por Claude Berri com Gérard Depardieu e Yves Montand. A história narra a luta de um jovem idealista urbano que tenta remodelar o mundo arcaico dos camponeses e acaba destruído por eles. A editora promete, para este ano, a publicação de A Vingança de Manon, continuação da saga dos Florettes.
Penso, logo leioPor falar em franceses, Descartes - Uma Biografia (Editora Record, 294 páginas, R$ 35,00), de Genevieve Rodis-Lewis, é um soberbo trabalho sobre a vida e a obra do filósofo, infelizmente, conhecido, por muitos, como o autor do ‘‘Penso, logo existo’’.
Professora da Universidade de Paris-Sorbonne, Genevieve lança novas luzes sobre fatos obscuros da biografia de Descartes, das querelas à morte gelada em Estocolmo, atendendo aos caprichos da rainha Cristina. Obra definitiva. Como Lucy - Os Primórdios da Humanidade (Bertrand do Brasil, 520 páginas, R$ 46,00), de Donald C. Johanson e Maitland Edey, que conta a história da descoberta do esqueleto de Lucy, a nossa ancestral mais antiga a caminhar ereta.
Os autores guiam os leitores numa viagem didática, e nada chata, pela paleoantropologia. Há todo uma atmosfera de thriller arqueológico até a confirmação do achado e você ganha todos os subsídios para entender por que os eruditos choram de emoção diante de um monte de ossos. Dá vontade de sair cavocando o jardim em busca do elo perdido.
De volta para o futuro, A Revelação de Rama (Editora Nova Fronteira, 468 páginas, R$ 33,00) é mais uma obra de um dos pais da ficção científica, Arthur C. Clarke. Numa colônia espacial estabelece-se uma ditadura brutal, com a desagradável mania de destroçar seus pacíficos vizinhos alienígenas e os próprios cidadãos. Invertendo a trama costumeira dos E.T.s fascínoras, o livro inaugurou a trilogia Rama. Fato inédito no gênero, ganhou os mais importantes prêmios literários.
ReproduçãoBiografia disseca fatos interessantes sobre o filósofo Descartes
Para os mais intelectualizados, a Edusp reservou um belo pacote de começo de ano. Você pode pedir seus livros pelo telefone 011-818-4008, pagar com cartão de crédito, que a editora manda-os, via Sedex, para sua casa. A Morte na Idade Média (Edusp, 320 páginas, R$ 23,00), com organização de Herman Braet e Werner Verbeke, traz um conjunto de textos que esclarecem como o homem enfrentou e representou o mistério da morte no mundo medieval. Dignos representantes da chamada história das mentalidades, autores como Phillipe Aries e Michel Vovelle, analisam os comportamentos coletivos criativos resultantes da morte. Não é de leitura fácil, mas o esforço vale.
Há tempos desaparecido das prateleiras, uma lacuna imperdoável, Literatura Européia e Idade Média Latina (Edusp, 760 páginas, R$ 60,00), catatau escrito pelo crítico Ernest Curtius, retorna em nova edição. Analisando poesia, retórica, as musas, metaforismo, Dante, Petrarca, Bocaccio e o Maneirismo, o tratado de Curtius é obra de referência obrigatória, pioneira na visualização de uma continuidade entre as culturas greco-romanas e a Renascença.
O Diálogo do Mortos (Edusp, 216 páginas, R$ 20,00), de Luciano de Samósata, é uma bem-cuidada (com uma avalanche de notas explicativas) edição bilíngue de um texto fundamental da Antiguidade grega. A tradução, de Henrique Murachco, foi feita a partir do grego clássico.
Escrita intrigante, a leitura já compensaria apenas para se conhecer a sátira menipéia, uma das fontes da ironia de Machado de Assis. Obra indicada para os parlamentares refletirem melhor, durante o recesso do Congresso, sobre a feitura da Lei de Imprensa é Revolução Impressa (Edusp, 416 páginas, R$ 35,00).
Organizada pelo ‘‘papa’’ da historiografia sobre a Revolução Francesa, Robert Darnton, é uma seleção de trabalhos de diversos autores discutindo a organização da editoração, peça-chave revolucionária, durante o Antigo Regime.
Poesia e escola de sambaDa censura às formas de burlá-la, os estudos mostram o poder da palavra escrita, que também pode servir de abrigo aos sentimentos, como se verifica na Obra Poética Completa de Federico García Lorca (745 páginas, R$ 35,40) e em Poemas de Florbela Espanca (338 páginas, R$ 19,80), da Martins Fontes.
Para encantar a alma só mesmo a poesia de Flobela Espanca
O maravilhoso Lorca é uma bem-vinda reedição, bilíngue, com boas notas, um objeto de desejo para qualquer bibliófilo. Do Romanceiro Gitano às Canções, a poesia de Lorca é um deleite de sonoridades espanholas e universais. Já Florbela traz o amor forte e feminino da poeta que melhor expressou a visão da mulher. Ela, aliás, bem poderia estar em A Mínima Diferença (Imago, 272 páginas), ensaios em que a psicanalista Maria Rita Khel discute a confusão da dualidade masculino/feminino em nossa cultura, analisando, entre outras, Salomé e Mariana Alcoforado.
Ainda assim, você acha que falta alguma coisa? Admita que não passa sem os desfiles das escolas de samba, mas assista a eles preparado a desafiar até mesmo os conhecimentos de arqueologia do samba de Leci Brandão. Entregue-se à erudição carnavalesca de As Escolas de Samba do Rio de Janeiro (Editora Lumiar, 450 páginas, R$ 25,00), de Sérgio Cabral. Contando as histórias e as glórias das escolas, a obra definitiva de Cabral ainda tem entrevistas com Cartola, Zé Keti, Martinho da Vila, Mestre Marçal e outros. Impressione a família, corrigindo, com garbo, as gafes dos comentaristas da TV. Ainda não está satisfeito? Então, ponha a fantasia de odalisca e caia na gandaia, para tudo se acabar na quarta-feira.

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