Enredos da mitologia africana
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 20 de junho de 2016
Marian Trigueiros<br>Reportagem Local 
Histórias da mitologia africana e afrobrasileiras contadas a partir da perspectiva dos orixás femininos, as yobás, estão sendo apresentadas com teatro de animação às crianças de cinco escolas da rede municipal pela Cia de Teatro Boi Voador, da Vila Cultural Flapt. O projeto independente "Cinco Histórias e um Repertório", com patrocínio do Programa Municipal de Incentivo à Cultura (Promic), tem mostrado de forma lúdica esse universo que, mesmo sendo conteúdo obrigatório previsto em lei para o ensino de história e cultura afro-brasileiras e dos povos indígenas, é pouquíssimo trabalhado nas escolas. Pensando nisso, os integrantes da companhia, que já realiza um trabalho atuando no campo da educação não-formal valorizando o folclore e a cultura popular brasileira, sobretudo pelos folguedos (festas ou manifestações populares), ampliaram suas atividades.
O diretor e dramaturgo Luan Valero conta que o projeto é uma forma didática de levar o conhecimento dentro das escolas e, assim, contemplar as diretrizes de maneira efetiva. "Apesar de haver duas leis (10.639/03 e 11.645/08) que preveem o ensino o conteúdo, percebemos que ainda há muita dificuldade dos professores em trabalharem esses temas com as crianças. Nossa metodologia alia o encanto da contação de história com a informação histórica e cultural. Assim, ao conhecer a história de outro povo, mas que também é nossa, aprendem sobre a origem das coisas e passam a respeitar as diversidades. Não rara as vezes, se enxergam nesse processo e identificam a própria história e a da família", explica.
A contação de história, portanto, é baseada numa prática muito comum feita por meio de um "itan", conjunto de mitos, canções e histórias. A cada dois meses o grupo interpreta uma das histórias e roda por cinco escolas de regiões de Londrina, num total de trinta apresentações. As histórias são "Criação do Mundo de Terra e Mar", "Mãe de Beber", "Ao Gosto do Rei", "Origem de Odu Obará" e "Palavra de Fogo: Xangô e Iansã" que contam um pouco de como o continente africano foi criado pelos orixás Iemanjá e Nanã e como, no meio dessa criação, nasceu Omolu, o orixá detentor de todas as curas e doenças da humanidade. Outros itans contam como a união das pessoas é possível vencer a morte e, também trata do poder desmedido que pode acabar com o mundo, a falta de água e a difícil aceitação de gênero.
Enquanto a atriz Vanessa Nakadomari narra história, os outros dois integrantes, Nayara Freire e Leonardo Neves, dão movimento aos bonecos. Ao mesmo tempo, o integrante Luan Valero é quem toca diversos instrumentos de percussão entoando as melodias com vocabulário iorubá, uma das línguas mais usadas na África. "Há muita resistência tanto dos professores quanto das famílias com relação ao conteúdo. Acontece que o conhecimento de algumas tradições sempre foi repassado oralmente e poucos são os registros escritos. Inclusive, a história dos orixás, as divindades africanas, sobreviveram pela religião, que ainda hoje é exercida. Mas nossa abordagem é sempre cultural e não religiosa. Pela história, música e encenação, as crianças conhecem esse outro universo. Ao final da apresentação, fazemos um bate-papo para que tirem as dúvidas ou perguntem curiosidades."
De acordo com a coordenadora da Escola Municipal Ruth Ferreira Souza, Maria Donato Felicidade, com apenas duas apresentações já é possível observar a mudança positiva nos alunos, mas, principalmente nos pais. "O desconhecido causa preconceito e julgamento. Quando as pessoas passam a ter informação, aceitam melhor a diversidade, porque entendem o motivo das diferentes vestimentas, comidas, tradições e o quanto disso ainda temos presente em nossa cultura. Depois de terem esse primeiro contato, de forma lúdica, conseguimos desenvolver outros trabalhos com as crianças em sala de aula", resume.
MATERIAL
Idealizada e coordenada por doze anos pela professora Doutora em Antropologia Social, Elena Maria Andrei, falecida no ano passado, a Vila Cultural Flápt tenta resgatar os principais folguedos, bem como realizar importantes pesquisas nas áreas de cultura afrobrasileira e educação escolar. Por meio desse conteúdo, incentivam o empoderamento e mudança social de crianças e adolescentes. A vila funciona, atualmente, no Conjunto Aquiles Stenghel, região norte, com várias atividades, incluindo lúdicas, arte e dança, em sede própria e na Associação de Moradores. Para auxiliar o trabalho de professores, a vila disponibiliza um material de apoio no desenvolvimento das atividades curriculares. O material em questão baseado nos conteúdos das leis, direcionado a educadores, está disponível gratuitamente na página do Facebook da Vila.


