Enquanto ''Pokémon'' não chega
Carlos Eduardo Lourenço Jorge
De Londrina
Especial para a Folha2
É bem verdade que a produtora é a Globo Filmes, e que Xuxa Meneguel e Renato Aragão são veteranos platinados do Jardim Botânico, apostas pagáveis a qualquer momento. Mas isto não invalida o fato concreto, aliás concretíssimo, de que a televisão brasileira pode e deve se tornar cúmplice vital do cinema brasileiro no doloroso processo de ocupação do mercado. Para o lançamento nacional, a partir de hoje, de O Trapalhão e a Luz Azul e de Xuxa Requebra, entram respectivamente no circuitão nada menos que 210 e 200 cópias. Isto significa que, nas próximas duas semanas, cerca de um terço das salas brasileiras vai conviver com o filme nacional, enfrentando a direta concorrência de um peso pesado da envergadura de Toy Story 2, destinado ao mesmo nível etário de espectadores, e do mais recente 007, com sua sempre renovada e antiga coleção de gadgets. E o furacão que atende pelo nome mágico de Pokémon foi sabiamente retirado dessa perigosa faixa de concorrência e fica aguardando o momento de saturação de um ou outro título. A prudência também bateu nos portões de Castelo Rá-Tim-Bum, o Filme, superprodução que entra na briga a partir de 7 de janeiro.
Para tentar bater o recorde do filme anterior - 1.650.000 espectadores para Simão, o Fantasma Trapalhão, lançado há exatamente um ano - Renato Aragão e sua produtora, a RA Produções, costuraram uma triangulação com a Globo Filmes e a LumiSre, representante da Miramax no Brasil. Vale dizer, de saída um bom negócio para todos, ainda melhor para a LumiSre, também distribuidora do filme no Brasil. É o quadragésimo filme de Renato Aragão, um histórico campeão de bilheterias em todo o território nacional, o único, aliás, que sempre se saiu bem nas disputas desiguais com a sofisticada tecnologia do oponente estrangeiro.
Argumento nunca foi o forte dos filmes de Renato Aragão. São quase todos ingênuos, decalcados em forma de pastiche de clássicos juvenis da ficção universal. É o caso deste O Trapalhão e a Luz Azul, que trata de dois mundos paralelos, o real de todo dia e um construído pela mais rasgada fantasia. Há de tudo para excitar a imaginação em férias da criançada: aventura e romance com reis, príncipes e princesas, piratas, bruxas e magos, todos em busca da luz azul, roubada e escondida na Montanha Negra. Tecnicamente sempre bem assistido e com elenco literalmente de apoio extraído do dia-a-dia da telinha global, a receita não tem como desandar.
Goste-se ou não do comediante - o estilo é justamente a falta de um - o fato é que a sobrevivência artística por quase quatro décadas, no Brasil, é marca para comemorações. Num determinado sentido, Aragão é exemplar: ele e Luis Carlos Barreto são os únicos a encarar a produção cinematográfica também como um negócio como outro qualquer. É difícil, no país onde se vive e onde um negócio como outro qualquer já tem problemas de sobra, querer sobreviver de cinema. Mas se Aragão e L. C. Barreto conseguem, por que não tentar viabilizar, agora de olho na co-participação da tevê, uma produção regular que não seja mais uma entre tantas retomadas?





