Ranulfo Pedreiro
O primeiro palco de Nelson Gonçalves foi um caixote. Ainda garoto, cantava nas ruas enquanto o pai se fingia de cego. Na música, a voz circulava segura. No bate-papo, tropeçava na gagueira que lhe rendeu o apelido de Metralha. ‘‘Penso mais rápido do que falo’’, justificava. Quando a fama veio, outra malandragem evitava o vexame em entrevistas: o cantor falava marcando o tempo com o pé para controlar a velocidade e evitar os engasgos.
Sua trajetória tem os contornos de uma montanha-russa. Da miséria chegou à fama, ganhou elogio de Frank Sinatra e ficou rico. Mas também transitou pela marginalidade, foi gigolô, pugilista e orgulhava-se de andar com um 38 na cintura. Mergulhou na cocaína e foi aprisionado por seis meses pela esposa para se desintoxicar. Alucinado, a espancava. Um dia acordou e percebeu que a vida seguia lá fora. ‘‘Macho é aquele que se cura do vício’’, dizia.
Todo esse contexto, associado a uma carreira que resultou em mais de 78 milhões de discos vendidos, torna Nelson Gonçalves uma figura única na música brasileira. Foram mais de 120 discos e 20 CDs, sem contar gravações em cera e 78 rotações. A carreira tinha data para acabar: em 2000 planejava lançar seu último trabalho. Morreu em abril do ano passado. Hoje Nelson Gonçalves completaria 80 anos.
Gaúcho de Santana do Livramento, Antônio Gonçalves Sobral cresceu em São Paulo, onde trabalhou como garçom e praticou boxe. A carreira musical começou na Rádio Tupi, onde foi contratado após uma apresentação em um programa de calouros. Em 1939 se mudou para o Rio de Janeiro. Desempregado, tentou a sorte em programas de calouros. Foi reprovado em todos, inclusive por Ari Barroso, que o aconselhou a voltar ao boxe.
O primeiro disco veio em 1941, com o auxílio de Benedito Lacerda. No álbum constava ‘‘Sinto-me Bem’’, de Ataulfo Alves, e ‘‘Se eu Pudesse um Dia’’, de Osvaldo França e Rosano Monello. O lançamento deu início a uma popularidade que Nelson Gonçalves ostentaria até a morte. Sua fama permaneceu mesmo quando andou desaparecido da indústria do disco.
Com Adelino Moreira fez uma parceria que rendeu ‘‘A Volta do Boêmio’’ e ‘‘Escultura’’. Entre os compositores que circularam com frequência pelo seu repertório estão ainda Herivelto Martins, Wilson Batista, Ari Barroso, Cartola, Dorival Caymmi, Chico Buarque e Lupicínio Rodrigues.
Entre os altos e baixos da carreira, Nelson Gonçalves personificou o machão com ares de cafajeste. ‘‘Eu fui muito pilantra mesmo’’, dizia. Não gostava de óculos escuros e associava o adereço à homossexualidade. Também não tinha papas na língua e confirmava todas as histórias de valentia e malandragem em que aparecia como protagonista. Declarou que não chutava homem deitado e lembrava com prazer do nocaute que aplicara em um brigão num boteco do Rio de Janeiro. Prezava a boêmia e a professava.
Quando desviou sua atenção para o rock dos anos 80, já na década de 90, era um dos raros que ainda cantavam com a empostação operística que caracterizou as gerações pré-Bossa Nova. Ainda com a voz em forma, Nelson Gonçalves representava uma época em que a dor-de-cotovelo falava mais alto e a brilhantina e os bigodinhos bem cuidados eram imprescindíveis. Nesse tempo, cantor era raridade e se media pela potência vocal.
Com uma voz grave, elegante e bem trabalhada, Nelson Gonçalves caminhou lado a lado com representantes da época em que o rádio reinava: Vicente Celestino, Sílvio Caldas, Orlando Silva e Francisco Alves. Sua técnica é impressionante, e ele se orgulhava de cantar em frente à chama de uma vela sem que ela estremecesse. Contratado pela RCA, permaneceu toda a carreira na gravadora, que se tornou a BMG. O sucesso rendeu mais de 40 discos de ouro e mais de 2 mil músicas gravadas.
Nelson não esbarrava na insegurança nem abandonava o tom. Suas gravações saíam de primeira, uma técnica que desenvolveu nos primórdios dos registros fonográficos no Brasil. Como os discos eram de cera, não havia possibilidade de erro, pois as remessas do material demoravam semanas para chegar às gravadoras. Um deslize significava grande atraso.
Um de seus sucessos, ‘‘Maria Bethânia’’, de Capiba, fez com que Caetano Veloso, ainda criança, escolhesse o nome da irmã recém-nascida. Quando a Bossa Nova surgiu, foi considerado ultrapassado. Deu a volta por cima e mostrou um fôlego incomum em quase 60 anos de profissão.
Durante essas décadas acumulou um número impressionante de músicas inéditas, que ainda aguardam lançamento. Em março de 1982 a revista ‘‘Veja’’ noticiava que Nelson Gonçalves poderia parar de cantar pois já tinha gravado o suficiente para garantir um disco por ano até 2003. Tanto sucesso foi definido com uma frase célebre: ‘‘Enquanto houver homem, mulher e traição, eu venderei discos.’’

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