'Enquanto a morte existir, vai haver teatro'
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terça-feira, 15 de agosto de 2017
Marian Trigueiros<br>Reportagem Local 

Ao mesmo tempo em que observa-se no país uma recente abertura e investimentos para as grandes produções de musicais nos moldes a la Broadway e montagens comerciais, principalmente comédias, há quem diga que o teatro de vanguarda está com os dias contados. Não raras às vezes, estão em cena adaptações com monólogos e equipes enxutas a fim de darem conta do baixo orçamento. Enquanto isso, o dramaturgo, diretor e professor Roberto Alvim, conhecido por suas obras arrebatadoras, vem para dizer o contrário: "Precisamos acreditar menos em tendência e mais que a arte é feita da eclosão de fenômenos singulares. Não podemos ser vítimas de supostas circunstâncias ligadas à crise ou qualquer outra coisa. Faço monólogo quando tem que ser em forma de monólogo e faço algo com 30 pessoas quando a obra pede aquilo. O teatro existe independentemente de nós e de acharmos o que pode ou não pode ser feito".
Cofundador da companhia Club Noir (São Paulo-SP), em 2007, ao lado da atriz e diretora Juliana Galdino, com 26 anos de carreira, Alvim foi diretor artístico do Teatro Carlos Gomes Sala Paraíso (RJ) de 2001 a 2004, e do Teatro Ziembinski Centro de Referência da Dramaturgia Contemporânea (RJ) de 2005 a 2007, onde criou o movimento "Nova Dramaturgia Carioca". "Uma vez, disse a um diretor que lamentou afirmando que o teatro está morto e não interessa mais à sociedade: 'O seu teatro talvez esteja morto e talvez o seu teatro não interesse mais à sociedade.' Digo isso porque as minhas peças estão sempre lotadas e não estou fazendo nenhuma concessão ao senso comum. Pelo contrário, são obras completamente radicais". Entre elas, destaques para diversas traduções e textos como "Caesar Como Construir um Império", "Anátema" e "Leite Derramado", que chega à Londrina nesta quarta-feira (16), na programação do FILO 2017.
Se o lamento paira sobre alguns, o diretor é taxativo e bastante otimista com relação ao futuro do teatro brasileiro. "Nós morremos e, enquanto a morte existir, vai haver teatro, porque o teatro é sobre a morte. Então, o dia em que inventarmos um jeito de sermos imortais, talvez o teatro acabe". Certo de que a realidade é construída por todos, ele adianta que está trabalhando em um grande projeto, para o ano que vem, completamente excêntrico. "Vai envolver mais de 30 pessoas na estrutura, um orçamento financeiro alto, para criar algo que não tem nada de comercial e totalmente fora do contra fluxo de qualquer musical", diz para concluir: "Não quero falar apenas para um gueto, tampouco no tipo de teatro hermético, fechado em si mesmo. Fazer obra de arte para cinco pessoas na plateia por dia não me interessa; fazer montagens comerciais com mil pessoas na plateia não me interessa. Agora, fazer obras de arte para mil pessoas na plateia por dia é o que me interessa. E isso é possível".


