Kraw PenasO diretor Pennafiel (à direita), com a trupe do Caos e AcasoUma experiência inédita e inusitada está para acontecer no 6º Festival de Teatro de Curitiba . Um grupo de cinco atores irá se trancafiar numa casa de vidro, erguida em frente às escadarias da Universidade Federal do Paraná, e ali permanecerá durante dez dias. Eles entrarão amanhã na casa e só sairão dia 23.
‘‘Aquariofobia’’, como se chama o projeto, será uma performance sem roteiro definido, explica o líder do grupo Caos e Acaso, o diretor Chico Pennafiel. ‘‘A gente vai agir conforme as circunstâncias’’, imagina. É difícil prever como estará o ambiente e as relações entre os atores depois de uma semana presos sem outra alternativa.
‘‘Ficaremos expostos assim como os animais’’, simplifica Pennafiel. À medida que a idéia parece estranha e incômoda, chega-se mais perto do que poderia ser a compreensão da tortura dos animais longe de sua liberdade. A cena lembra momentos do filme ‘‘Planeta dos Macacos’’, observa o ator.
A ficção da tela, em que os homens enjaulados ficam à mercê da curiosidade dos macacos, mistura-se ao nonsense da realidade. Encerrados nas quatro paredes de vidro, os habitantes deste final de século livram-se das maldades do mundo. Ao mesmo tempo caem na armadilha de sua própria prisão.
Kafka e computadorA idéia da performance partiu dos realizadores do festival, Vitor Aronis, Cássio Chamecki e Leandro Knopfholz. Levaram a proposta diretamente para Chico Pennafiel. Acertaram na mosca. O grupo Caos e Acaso acolheu o desafio com entusiasmo.
‘‘Estou me sentindo premiado’’, disse o diretor para a Folha2. Outra das referências que ele detecta ao morar na casa de vidro, é o clima que impregna o romance de Aldous Huxley, ‘‘Admirável Mundo Novo’’. Está sendo uma festa para ele e para Andrei Moscheto, Camila Leitorles, Danielle Andrade e Valdair Rosa, todos integrantes do Caos e Acaso.
Isolados do mundo num espaço de 25 metros quadrados, os artistas estarão umbilicalmente ligados a esse mesmo mundo, através da tecnologia. Computador, Internet (e-mail FTC arroba SUL.COM.BR), telefone, televisão e, se der certo, poderão até brincar de manchar de cores a cidade, projetando ‘‘slides’’ nas árvores, nos prédios ao redor.
Literário, Pennafiel compara as paredes transparentes ao personagem de Kafka que acorda certo dia e se vê transformado em barata. O susto e a impotência são os mesmos: Pennafiel faz parte de uma família que acorda pela manhã e depara com os tijolos da casa transformados em vidro.
Situação limite O público verá cenas dessa família trancafiada 24 horas por dia, durante dez dias, como reza o projeto. Poderá até tentar se comunicar por mímica, porque não haverá comunicação verbal. Tem gente planejando fazer serestas, levar flores e velas para iluminar a noite dos amigos encarcerados. Planos existem, o que não se sabe é quantos serão levados à prática.
Vivendo numa situação limite ao ter dias e noites devassados pelos olhos dos passantes da rua, os moradores da casa terão momentos em que colocarão máscaras para despir-se delas, de acordo com a conveniência. Como disse o diretor, os animais enjaulados nos zoológicos nem sempre urram ou jogam restos de comida na platéia. Há um espaço que eles reservam para o silêncio e distanciamento.
A princípio tudo é novidade, difícil vai ser cuidar das pequenas diferenças que poderão se tornar maiores à medida que o desgaste da convivência também se acentuar. Os cinco atores estão sendo assessorados por uma psicóloga. O atendimento continuará depois que deixarem a casa.
Idéias pululam na cabeça dos artistas. Pensam em promover um baile, com caixas acústicas voltadas para fora, num convite explícito à dança, receber convidados (através de sorteio) para viverem a experiência durante um dia, instalar duas câmaras de cinema - uma dentro, outra fora da casa - para um filme curta-metragem.
Isso tudo está no âmbito das possibilidades, sem que venha acontecer realmente. O que já está concretizado é a produção de um diário, escrito coletivamente. Esse diário servirá de material, no futuro, para uma peça de teatro.
Quatro paredes‘‘Estou me sentindo premiado com este trabalho. É a possibilidade de empreender um evento teatral sui gêneris. Ele é muito provocativo, instigante, enigmático’’, comemora Pennafiel. O desafio caiu como uma luva ao grupo Caos e Acaso, formado por jovens artistas. Eles pagam para entrar nos caminhos pouco explorados.
Quando produziram ‘‘Antígone’’, de Sófocles, usaram elementos circenses para contar a tragédia grega. O recital teatralizado dos poemas de Paulo Leminski, ‘‘Caos Leminski’’ ficou no papel durante três anos porque Pennafiel não conseguia patrocinadores. Ninguém acreditava que o espetáculo pudesse aguentar três dias numa temporada.
Encenado no Teatro Novelas Curitibanas, foi o grande sucesso da temporada, ano passado. Permaneceu seis meses em cartaz, comovendo a platéia numa das melhores produções de 1996. ‘‘Estamos indo para a rua com um trabalho anticonvencional, sem textos, só feito de gestos. É uma coisa muito forte, uma instalação porque vai interferir na paisagem mais tradicional da cidade’’, considera o diretor.
Estarão entre dois ícones culturais de Curitiba: de um lado o Teatro Guaíra, de outro a Universidade Federal do Paraná. Estarão acompanhados pelos bustos de paranaenses ilustres, entronizados na Praça Santos Andrade, voltados para a universidade.
‘‘Para mim o teatro é a arte do encontro’’, celebra Chico Pennafiel. Esse encontro ele terá em tempo integral. E mais: encerrados na casa, os atores vêm erguida a quarta parede, da qual falava Stanislawisky. Esta Brecht perdeu.

mockup