Os Racionais MCs completam 18 anos sem jamais terem traído seu maior princípio: a lealdade à periferia. A metralhadora giratória do grupo tem alvos tão díspares como certeiros, como a polícia, o sistema, o racismo e a imprensa. Desde o lançamento do CD duplo ''Chora Agora, Ri Depois'', em 2002, Mano Brown, Edy Rock, Ice Blue e o Dj KL Jay pouco deram as caras em jornais, revistas e emissoras de TV. Na entrevista concedida à Agência Estado, o DJ KL Jay explica por que a relação do grupo com a imprensa é tão tensa e dá detalhes sobre o DVD ''1000 Trutas 1000 Tretas'.


Vocês gostaram do DVD?

KL Jay - Saiu muito bom. Bem produzido, com imagens inéditas e bastante informação, do jeito que a gente queria. Usamos o tempo máximo do DVD, literalmente. E não é só música. O documentário dirigido pelo (Mano) Brown foi um resgate histórico da cultura negra também. O pessoal pára a gente direto nas ruas para falar ''meu pai chorou quando assistiu, minha mãe adorou'', essas coisas.


Por que lançar ''1000 Trutas'' só em DVD e não também em fita de vídeo VHS?

O DVD é uma mídia do presente, a evolução, a modernidade. Com qualquer R$ 300 você compra um aparelho hoje em dia. O DVD invadiu a periferia. Basta ver as pesquisas que mostram que as classes C, D, e E são as que mais consomem.


O show tem, logo na abertura, a presença de Jorge Benjor. Como foi dividir o palco com ele?

O contato com o Jorge Ben foi feito pelo Mano Brown, que sempre foi fã. Foi criada muita expectativa para esse show, pelo fato de ser na zona leste (SP), fazia tempo que a gente não tocava lá, e pelo fato de ter essa ponta. Não deu nervoso porque nos concentramos e sabíamos que não poderíamos errar. Era um show corrido, sem cortes. Tinha que dar tudo certo, e deu.


Foi como vocês imaginavam?

Foi melhor! Naquele dia levei todos os meus discos, devo ter uns 20, para o Jorge Ben autografar. Ele assinou um por um, incrível. Quem é DJ de black, como eu, sabe que é só tocar os discos do Jorge Ben que todo mundo chapa, pira, passa mal. O cara detona, arregaça.


Vendo o DVD, a impressão que dá é que todas as periferias viraram uma só na platéia. É assim sempre?

Os Racionais são a voz dos moradores de todas as periferias, a voz dos que nunca tiveram voz, dos que acordam cedo para trabalhar e ralam 24 horas por dia para trazer comida em casa. A gente não é nem vai ser diferente deles. Essas pessoas vêm ao nosso show porque sabem disso. É uma relação de lealdade.


No documentário, Mano Brown dá uma volta num bairro nobre e destaca o medo dos vigias que se impressionam com a presença dele. Fala de uma ''placa invisível'' que diz que ''favelado não entra''. Ela existe?

Não precisa nem ser favelado. Pega um cara preto, pobre, e pede para ele dar um rolê à noite no Morumbi (zona sul de São Paulo). Tá na cara que o racismo não acabou. É cultural, está no sangue das pessoas. O racismo está em todo lugar, no açougue, na padaria, no metrô, na rua, na escola, no banco...


A música dos Racionais fala da periferia, mortes violentas, presídios... Então quem ouve o som de vocês em carros importados, rodando pelos Jardins ou Itaim, são menos importantes?

É o seguinte, vou falar como ouvinte, não como DJ. A música ultrapassa fronteiras e chega aos ouvidos de todos que estiverem disponíveis a ouvi-la. Nosso som vai além da periferia, fala das coisas de vida. E a vida é vivida por todos, pelo branco e pelo preto.


Os Racionais MCs vão completar 18 anos. Como está a cena rap independente de hoje?

Tem muita gente boa, boa mesmo, vindo aí: Relatos da Invasão, KGB, o Time, entre outros. É uma geração que sabe do que está falando e vai dar continuidade ao nosso trabalho.


A relação de vocês com a imprensa sempre foi tensa. Por quê?

Porque jornais, revistas e TVs distorcem tudo o que você fala. Para fazer sensacionalismo, chacota com seu nome. Não existe diálogo. Mas dá para conversar, né? A gente só tem cara de bravo.

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