Enfim, a autobiografia
ENFIM, A AUTOBIOGRAFIA
Dias Gomes, autor de textos para o teatro, cinema e televisão, escreve livro em que conta sua vida
Norma Couri
Especial para AE
Reprodução
Dias Gomes tem história e sabe muito do Brasil onde enfrentou a ditaduraNoveleiro de primeira, autor do maior pique de audiência jamais alcançado na televisão com Roque Santeiro, em 85, Alfredo Dias Gomes resolveu contar a sua história e acabou partindo para um verdadeiro roteiro de minissérie em 25 capítulos que é um retrato da história do Brasil contemporâneo. Apenas um Subversivo, a ser lançado segunda-feira pela editora Bertrand do Brasil, revela os bastidores da televisão, a escola do rádio, os anos da censura, a censura que existia antes dos militares de 64, a guerra dos palcos, a interferência da cena real no tecido dramático nacional. Com uma realidade dessas, quem precisa de ficção no Brasil?
Visado desde sempre por suas posições de esquerda e simpatia pelo Partido Comunista que integrou e abandonou, ele narra como levou uma surra no lugar de Mário Lago (Até hoje, quando o encontro, lembro: Você ainda me deve essa). Também relembra como usou testas-de-ferro para assinar seus trabalhos (Anos mais tarde assisti ao filme Testa-de-Ferro por Acaso, do Woody Allen, e vi surpreso que ele falava da minha história pessoal). Durante algum tempo assinou novelas com o pesudônimo Estela Calderón e mais tarde teve uma surpresa: Não é que existia uma autora argentina com esse nome?
Dias Gomes conta que os censores, quando não encontravam nada para cortar, não liberavam os textos assim mesmo, justificando: Está na cara o que o senhor estava pensando quando escreveu isso! Relembra ele que os censores viam fantasmas até no comercial de Modess feito por Marília Pêra: Só pode ser propaganda subliminar para atacar a família brasileira, diziam.
O Brasil da ditadura produziu peças impagáveis. Obrigava os autores a recosturar roteiros censurados para parecerem novos, como Quando os Homens Criam Asas, que virou Saramandaia. Ou A Invasão, passada no subúrbio do Rio, com nordestinos, jogo do bicho, os bicheiros Tucão e Sabonete, a Escola de Samba Imperatriz Leopoldinense de Ramos, que virou Bandeira Dois e acabou em musical, O Rei de Ramos, com música de Chico Buarque. Mas Roque Santeiro, inicialmente encenada por Betty Faria e Francisco Cuoco no lugar de Regina Duarte e José Wilker, ficou dez anos proibida depois que grampearam meu telefone e descobriram ser a proscrita O Berço do Herói, conta Dias Gomes. Ameaçaram fechar a Globo.
Casado por 30 anos com a maior noveleira do País e mãe do melodrama televisivo brasileiro, Janete Clair, que morreu de câncer há 15 anos, Dias Gomes sempre obedeceu a uma superstição da mulher, de colocar uma frase sua no início e outra no fim de cada novela. Às vezes, surpreendia-se com o que lia: Mas Janete, é inverossímil! E ela, mestre do absurdo, não se abalava. E daí? Não está bom? Dias Gomes reconhece: Janete descobriu que o absurdo faz parte da nossa realidade. Casado pela terceira vez, com a atriz Bernadete Lisio, de 35 anos, e com cinco filhos com idades entre 48 e 6, Dias Gomes continua escrevendo. Mas já não faz novelas. Assisti-las, então, nem pensar: Sou pago só para escrever.
Acreditando que uma novela ideal tem três capítulos - começo, meio, fim - ele cansou de escrever 160 capítulos e perder um ano da vida a cada sucesso. Fiz os 30 primeiros capítulo de Mandala, depois escrevi Araponga, e parei, porque uma novela é o caminho mais curto para um enfarte. Dias Gomes foi vítima de um; Jorge de Andrade e Cassiano Gabus Mendes têm pontes de safena; Janete Clair teve câncer; e Paulo Ubiratan sucumbiu. Agora, só minisséries, decreta. Dias Gomes, de 75 anos, acha que o nível caiu, que o público mudou, que o Brasil piorou e não quer entrar nessa. Fez Noivas de Copacabana, O Fim do Mundo, Decadência, Dona Flor e tem 16 capítulos prontos na Globo sobre a geração de 68, que este ano faz 30 anos.
Ele mesmo completa 30 anos de Globo no ano que vem, mas passou o último ano escrevendo a autobiografia e o próximo trabalho vai ser outro livro. Ele tem seis romances publicados. Dias Gomes é autor de O Pagador de Promessas, que ganhou a Palma de Ouro em Cannes em 1962 - a expressão Cinema Novo foi criada na sua casa, numa reunião onde estavam Leon Hirshman, Oduvaldo Viana Filho, Joaquim Pedro e Anselmo Duarte. Muitas de suas 40 peças foram encenadas por Procópio Ferreira. Assinou imperdívies programas de rádio, que lhe deram a experiência necessária para emplacar na televisão (Não é nada mais do que rádio com imagem). E é membro da Academia Brasileira de Letras, depois de ter escrito Meu Reino por um Cavalo e de ter feito o personagem Odorico Paraguassu tomar posse na Academia de Sucupira montado em um cavalo. (Temia que os acadêmicos se lembrassem, brinca).
Dias Gomes tem história e sabe de Brasil. Para ele, valeu a pena. Como diz na epígrafe do livro, de autor desconhecido: Se não houver frutos/ valeu a beleza das flores/ Se não houver flores/ valeu a sombra das folhas/ Se não houver sombra/ valeu a intenção da semente.





