Energia renovada
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 22 de dezembro de 2015
Geraldo Bessa <br>TV Press 
A elegância de Irene Ravache impressiona. Intérprete da densa Vitória, de "Além do Tempo", ela consegue passear pelos mais diversos assuntos - como a violência do Rio de Janeiro, a glamourização boba da profissão de atriz ou as modificações passadas pela televisão ao longo dos anos - de forma racional, sem perder o tom. Totalmente mergulhada em sua personagem na atual novela das seis, as contradições de Vitória, no entanto, são seu foco. "É um trabalho renovador. Ele me reconecta com muitas coisas que fiz ao longo da carreira e me dá novas perspectivas. Tive grandes cenas na primeira fase e essa qualidade se repete agora no período contemporâneo", destaca.
Carioca que vive na ponte-aérea Rio-São Paulo, Irene nunca fez outra coisa na vida além de atuar. Com passagens por diversas companhias teatrais e emissoras de tevê, como Tupi, SBT e Globo, foi nessa última que ela estreou no vídeo, em "Paixão de Outono", de 1965. Cinco décadas depois, a atriz se orgulha de manter o vínculo artístico com a emissora em que fez trabalhos célebres como "Champagne", "Sassaricando" e "Passione". "Tudo mudou muito ao longo desses anos. A única coisa que fica intacta é a emoção. É o que eu busco a cada novo trabalho", ressalta a atriz de 71 anos.
Sua personagem foi a grande vilã da primeira fase de "Além do Tempo" e agora surge de forma mais introspectiva e vitimizada. Como você se preparou para essa virada?
Essa novela me leva a ter um trabalho muito intuitivo e baseado no texto. A interação da Vitória com o resto do elenco sofreu profundas modificações. Ela saiu do auge, do topo, e agora está em uma posição, digamos, bem frágil. Eu achei essa estratégia da Elizabeth (Jhin, autora) fantástica. Vitória vive amargurada pelos erros do passado. Não só os que aconteceram há 150 anos, mas equívocos recentes. São duas histórias diferentes e complementares e minha atuação segue essa nova atitude dela em relação à vida.
Suas cenas na primeira fase tiveram grande repercussão. Como você lida com esse apelo da vilã tradicional com o público?
Eu acho uma delícia. E, realmente, na fase Condessa, a Vitória chamava muita atenção. Acredito que, em uma novela de época, o ator tenha mais recursos para se jogar no papel. O texto é menos objetivo, é possível "carregar a mão" e exagerar no tom. Isso é fábula e sempre encanta o público. Fora que eu estava muito bem dirigida e acompanhada em cena. A repercussão foi muito boa. Eu andava nas ruas e as pessoas me olhavam de forma engraçada, como se reprovando as atitudes da personagem. Ainda bem que o público de televisão envelheceu e ficou mais inteligente.
Como assim?
Sou de uma época onde o público não sabia bem distinguir o que era atriz e o que era personagem. Muita gente apanhou na rua por causa disso (risos). Isso parece meio absurdo, mas é totalmente real. Acho que existe uma maturidade, as pessoas sabem que é a Irene e me cumprimentam não pelo o que o personagem faz, mas pelo meu desempenho dentro da história. Existe um carinho muito grande, acho que muito pela história que venho construindo, não só na tevê, mas como no teatro e no cinema.
Este ano você completa 50 anos de televisão. "Além do Tempo" é um bom trabalho para celebrar a data?
Sem dúvida. Até porque, nessa trama, eu pude exercitar coisas que venho aprendendo ao longo de toda a minha trajetória. É um dos trabalhos mais surpreendentes da minha carreira. Novela é sempre uma incógnita. Você é escalada e sabe apenas o básico da personagem. É impossível prever o fim, pois muita coisa pode acontecer. No caso de "Além do Tempo", essa sensação é elevada à máxima potência.
Isso não pode deixar o intérprete meio perdido?
Já me senti perdida em muitas novelas (risos), mas não é o caso dessa. Elizabeth e Rogério (Gomes, diretor) têm total domínio sobre a obra. A gente começou a trama sem saber como seria o final da primeira fase e o que iria fazer na segunda. Mas em nenhum momento o elenco ficou desconfiado sobre a qualidade e a coerência do trabalho. Na verdade, foi uma ótima surpresa e eu quis que fosse assim. Poderia ter tido acesso ao texto da nova fase da Vitória, mas quis esperar o final de uma fase para poder mergulhar em outra.
Por quê?
Porque, de alguma forma, eu poderia acabar me influenciando pelo destino que ela teria. Eu estava gostando tanto da versão "Condessa" que não queria que acabasse. Me apeguei ao clima e aos figurinos da novela e tudo estava fluindo muito bem. Era impressionante a sintonia dos atores e seus personagens. Junto com Nívea (Maria), Felipe (Camargo), Alinne (Moraes) e vários outros, fizemos inúmeras cenas de primeira. Isso em novela é tão interessante. Dá um frescor! E é bom que a gente já se livra daquela emoção.
Muitas atrizes reclamam da pouca oferta de boas personagens para mulheres que já passaram dos 60 anos. Você sente essa escassez?
Já senti um pouco e fiquei alguns anos afastada da televisão, ou fazendo participações esporádicas, senão eu iria acabar fazendo coisas que, no geral, não me seriam tão atrativas artisticamente. Mas acho que, atualmente, autores e diretores estão muito preocupados com a qualidade dos personagens e mantêm intérpretes experientes em destaque, tanto homens quanto mulheres. "Além do Tempo" é um reflexo disso. Temos Nívea Maria, Juca de Oliveira, Othon Bastos e Carlos Vereza em papéis ótimos. Eu tenho feito muitas novelas nos últimos anos e são personagens que me instigam e me fazem ter prazer em atuar.


