Atacil & Zezinho, Lucas & Valentin Viola, Peão Campeiro & Rangel, Havaí & Carlos Rossi, Tibagi & Ramalho, Pedro Roxão & Piraquara, Campo Grande & Cuiabá. Você pode nunca ter ouvido falar de boa parte deles, mas estas são algumas das duplas sertanejas que se revezam toda segunda-feira à noite nos encontros da Companhia da Viola, entidade de utilidade pública criada há sete anos em Londrina para manter a tradição da chamada música sertaneja de raiz.
A Cia da Viola surgiu como um desmembramento da Confraria da Viola, que há 18 anos promove encontros - fechados - para tocar o instrumento. A ideia era preservar, mas também difundir a tradição das modas de viola a qualquer interessado. Hoje, a companhia tem 22 confrades, que mantêm a entidade, e recebe pelo menos 50 convidados a cada encontro na Associação dos Viajantes, no Jardim Tóquio.
Embora a estrutura disponha de mesa de bilhar, quadras de bocha e até um campinho de futebol, o interesse dos participantes está exclusivamente no salão, local onde se reúnem para ouvir boa música, principalmente o sertanejo de raiz. As apresentações são abertas para qualquer interessado mas têm uma restrição bastante polêmica: mulher não entra - o que deve desagradar algumas esposas (dispostas a acompanhar os maridos) e tranquilizar outras (afinal, eles estarão longe de qualquer rabo-de-saia). ''É uma tradição que vem desde o tempo da confraria'', explica Floriano Terra Filho, presidente da companhia, acrescentando que a entidade só abre exceção para cantoras que tenham CD gravado e queiram se apresentar.
''Até as 23h, que é a hora em que encerramos, nós cuidamos dos maridos delas. Depois, eu não sei'', brinca Floriano. Ele explica que as esposas só são bem-vindas em eventos especiais, como as celebrações do Dia das Mães e Dia dos Pais. Nessas ocasiões, elas podem conferir o que a repórter e a fotógrafa da FOLHA viram com exclusividade na última segunda-feira: homens bem-comportados, conversando, bebendo, ouvindo e até cantando junto suas músicas preferidas, em um ambiente bastante descontraído.
Em um determinado momento, um sino é tocado para anunciar: o jantar está servido. E, diferentemente do alvoroço esperado (já que o cheiro é bastante convidativo), os espectadores se levantam para rezar o Pai-Nosso. Em seguida, os que estão ali pela primeira vez sobem ao palco junto com a diretoria, e todos juntos cantam o Hino da Cia da Viola, composto por Alcino Alves de Freitas (ex-Sampaio da dupla Teodoro & Sampaio). Cantam ainda um Parabéns a Você, em homenagem aos aniversariantes, e só então fazem fila diante dos panelões preparados sob o comando de João Mota.
Aliás, só a comida já valeria a participação nos encontros. Esta semana o prato principal era pernil assado com batatas, acompanhado por arroz, feijão tropeiro e beringela refogada. Tudo com aquele gostinho de comida caseira, perfeito para acompanhar a música. E os cardápios não se repetem nenhuma vez durante o ano. ''A não ser que haja uma solicitação da diretoria'', garante Mota, que, no ano passado, precisou repetir seu prato de maior sucesso: a rabada.
A música continua até as 23h, quando se encerra o encontro. Como o local não tem garçom, ao terminar de comer, cada homem recolhe seu próprio prato da mesa, e o leva para o local adequado, separando as talheres e descartando as sobras no lixo - e esta repórter se pergunta: será que todos fazem o mesmo em suas casas?
De qualquer modo, tudo ali é tão organizado e descontraído que é uma pena não poder voltar na semana seguinte apenas por ser mulher. Mas com a presença feminina certamente muita coisa ali seria diferente, do conteúdo das conversas ao comportamento masculino. E, segundo Floriano, em todos esses anos, nunca houve qualquer confusão ali dentro. Nem briga de casal, é claro.

SERVIÇO
Quando - Todas as segundas-feiras (exceto feriados), das 19h às 23h
Onde - Associação dos Viajantes (R. Waldomiro Fernandes, 445)
Quanto - R$ 15 (bebidas são cobradas à parte)

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