Pela primeira vez em Londrina, um texto do dramaturgo Mário Bortolotto é levado ao palco sob a direção de outro profissional. Até então, na cidade, suas peças eram montadas pelo Cemitério de Automóveis e dirigidas por ele mesmo. Agora, quem encara a experiência é Maurício Arruda Mendonça, ao dirigir ''Curta Passagem 4 Pocket Peças''. A montagem, que será apresentada de amanhã a domingo, às 21 horas, no Teatro Zaqueu de Melo, encerra o Projeto Cemitério em Cena.
A proposta é a de encenar textos do dramaturgo londrinense, com elenco formado por atores da cidade. Convidado pela produtora Christine Vianna, Mendonça selecionou oito atores: Simone Andrade, Fernando Delabio, Soraia Costa, Rafael Arruda, Rodrigo Calistro, Fernanda Catai, Emerson Dias e o estreante Carlos Caraco.
Escrita em 1992 e encenada pela primeira vez em 1994, ''Curta Passagem'' integra quatro peças curtas, que pontuam os encontros e desencontros de três casais e uma dupla de vizinhos. O que une as histórias é a solidão de pessoas que buscam algum sentido para suas existências. Em ''Billy, a Garota'', a protagonista tenta convencer Hassim, recém-separado da namorada, a cometer suicídio. Já em ''Another Day'', o personagem Sabóia realmente tenta o suicídio enquanto o vizinho o desencoraja, ao mesmo tempo em que o incentiva.
''Faz Frio na Varanda'' apresenta Glória, uma garota que tenta levar o irredutível Alessandro para a cama. Finalmente em ''Garotas Apaixonadas Não Usam Aliança'', Vanessa (que aparece na primeira cena abandonando o namorado Hassim) tenta reatar com Henrique, seu antigo noivo.
O relacionamento de casais e a solidão são temas recorrentes em alguns textos de Mário Bortolotto. No entanto, o dramaturgo acredita que ''Curta Passagem'' vai na contramão de sua dramaturgia mais conhecida. ''Insistiam em me rotular como dramaturgo marginal, sempre escrevendo sobre personagens excluídos, violentos, etc. Não que realmente me incomodasse com tal pecha, mas achei que era o momento de brincar com uma temática radicalmente diversa''.
Mendonça avalia que em ''Curta Passagem'' Bortolotto tem um carinho especial com os personagens, principalmente as mulheres, que são fundamentais nas histórias. ''Apesar dos temas pesados, como solidão e suicídio, é possível perceber a delicadeza de Mário ao lidar com eles''.
Essa é a primeira experiência de Maurício Arruda Mendonça em peças na linha de Mário Bortolotto. A escolha para a direção, segundo ele, se deve principalmente à afinidade de muitos anos entre ele e o autor. ''Estou contente de fazer esse trabalho do Mário, que é um dos jovens dramaturgos mais destacados no cenário teatral brasileiro''.
As montagens de Mário Bortolotto com o Cemitério de Automóveis carregam uma marca característica, que dificilmente se compara a outras experiências. Para Mendonça, a proposta da direção é fazer uma leitura de um texto dramático respeitável, na tentativa de atender ao universo do autor. ''Mas não há como fazer Mário Bortolotto puro. Ele escreveu esses textos em função das visões e formações dele e dos atores que o acompanham. Nós vamos trilhar para uma interpretação particular de um grupo de atores''.
A direção de Mendonça prima pela simplicidade, o que não foi considerado tarefa fácil. ''É que, ao mesmo tempo, os personagens do Mário são bastante complexos e carregam referências profundas''. Com faixa etária média de 20 anos, os atores estão empolgados com a montagem, principalmente porque os textos falam do que eles vivem e conhecem. ''A identificação da moçada com textos do Mário é incrível'', diz o diretor.
O grupo de atores trabalhou dois meses no espetáculo, que foi montado em um sobrado da Avenida Duque de Caxias, onde mora um deles. Sem espaço para ensaiar, aproveitaram a informalidade dos cômodos da República Veneno para trabalhar a simplicidade da montagem.
No projeto Cemitério em Cena foram realizados oficinas de Dramaturgia e Interpretação, o lançamento do livro ''Sete Peças de Mário Bortolotto'', o evento Beat Cemitério e a apresentação das peças ''A Lua é Minha'', Efeito Urtigão'' e ''Felizes Para Sempre''.
Mário Bortolotto, ator, diretor e dramaturgo, mora atualmente em São Paulo, onde dá continuidade ao trabalho do grupo Cemitério de Automóveis. Autor de várias peças, como ''Medusa de Rayban'', ''Vamos Sair da Chuva Quando a Bomba Cair'' e ''Leila Baby'', Bortolotto ganhou em 2000 o Prêmio APCA pelo conjunto da obra e o Prêmio Shell de Melhor Autor por ''Nossa Vida Não Vale um Chevrolet''.


q''Curta Passagem 4 Pocket Peças''. Texto de Mário Bortolotto. Estréia: amanhã, às 21 horas, no Teatro Zaqueu de Melo (Avenida Rio de Janeiro, 413), em Londrina. Essa apresentação integra a programação do LondriNatal Cultural e tem entrada franca. Prossegue nos dias 14, 15 e 16, com ingressos a R$ 5,00. Duração: 50 min. Direção e cenário: Maurício Arruda Mendonça. Produção: Christine Vianna. Sonoplastia: Valquir Fedri. Iluminação: Jacqueline Sasano. Figurinos: Camila Gerotto. Patrocínio: Lei Municipal de Incentivo à Cultura, Sercomtel e Caixa Econômica Federal. Apoio: Hotel Coroados e Farmácia Vale Verde.

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