Encontro marcado com Paulo Flores
PUBLICAÇÃO
domingo, 27 de julho de 2003
Ana Setti Rosa<br> Reportagem Local 
Fundador da Tribo de Atuadores ''Ói Nóis Aqui Traveiz'', grupo formado em Porto Alegre há 25 anos e que tem como principal característica a contínua experimentação teatral, Paulo Flores está na cidade para participar do projeto ''Londrina - Cena Aberta''. Ele faz palestra sobre sua extensa vivência teatral hoje, no Cine-Teatro Ouro Verde, às 20 horas, enquanto, em paralelo, continua a ministrar uma oficina para multiplicadores, em três módulos, que teve início no dia 16 de julho e se estende até 26 de agosto.
Formado em Artes Cênicas pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, e vocacionado para o teatro desde a adolescência, quando ''gostava de brincadeiras de criar personagens'', Paulo descobriu-se querendo viver da arte em meio à censura já um pouco diluída, mas ainda presente, da ditadura militar do final dos anos 70. Além da resistência ao regime vigente, movia-o um descontentamento com o que era feito em teatro na Porto Alegre da época. ''Era um teatro muito convencional'', comenta, ''cuja única preocupação era se viabilizar econOmicamente''. Havia, portanto, ''pouca investigação e pesquisa em relação à linguagem cênica''.
Constituiu, então, com amigos que pensavam da mesma forma, o grupo ''Ói Nóis Aqui Traveiz'', título de um disco dos Demônios da Garoa, que lembrava, segundo Paulo, a idéia de ''resistir e retomar valores''. O conceito de trabalho do grupo foi objeto de muitas discussões, mas havia inúmeras referências de linguagem teatral a serem estudadas. Bastava olhar para trás e para o presente, especialmente ''para a nova estética teatral brasileira proposta pelo Arena e pelo Oficina, grupos que resistiam, apesar de amordaçados pela ditadura''. A definição por um teatro de pesquisa e investigação surgiu a partir daí. A proposta era realizar um trabalho orientado ''pelo comprometimento com a realidade do país'', sem, no entanto, abrir mão da estética ou da poética, mesmo que essa poética fosse às vezes um pouco áspera, a ponto de ''incomodar as pessoas''.
Outra questão importante definida nesse início referiu-se à decisão de prescindir do ''palco italiano, típico do teatro convencional'', substituindo-o pela organização do próprio espaço ''a cada espetáculo, de forma a tornar possível a plena expressão da mensagem''. Por outro lado, em termos de grupo, a estruturação se deu com base nas idéias ''do coletivo, da auto-gestão, em que o ator é também criador e encenador''.
O próprio espaço, no entanto, não foi algo fácil de ser conquistado. Começaram utilizando um teatro com o mesmo nome do grupo, passaram pela ''Casa para Aventuras Criatrivas'', chegando, em 1984, ao ''Terreira da Tribo''. O nome foi, então, conservado, mas o espaço não. Em 1999, depois de 15 anos no local e mesmo contando com o apoio da população para que o espaço se transformasse em patrimônio público, não obtiveram o aval do governo do estado para a proposta e viram-se obrigados a mudar de endereço.
Como resistir parece ser a palavra de ordem do grupo, nada se alterou com a mudança. Ao contrário, o trabalho ampliou-se e ganhou força. Não mais esquetes, envolvendo questões políticas e até ecológicas, apresentados pela ''Tribo'' no começo dos anos 80 em meio a manifestações populares, mas o ''Teatro de Rua'', do qual se tornaram referência no Brasil. Não mais uma busca de novas linguagens apenas, mas um conceito sedimentado no ''Teatro de Vivência'', que integra o espectador ao espaço e o estimula a vivenciar as ações cênicas, tocando sua afetividade. Não mais pesquisa e investigação destinadas somente ao grupo, mas partilhadas por meio da Escola de Teatro Popular, fundada pela ''Tribo'' em 2000. Frente a toda essa vibração e ao encantamento que causa, não é de estranhar que, em Porto Alegre, como diz Tânia Farias, uma das ''atuadoras'' da ''tribo"'' seja comum o público perguntar: ''O que será que eles vão inventar desta vez?''.
Serviço
Londrina - Cena Aberta:Palestra de Paulo Flores, fundador da Tribo de Atuadores ''Ói Nóis Aqui Traveiz''. Hoje, às 20 horas, no Cine-Teatro Ouro Verde (Rua Maranhão,85). Ingressos: R$ 4,00 (inteira) e R$ 2,00(meia entrada). O projeto ''Londrina - Cena Aberta'' é uma promoção do Programa Rede da Cidadania (Prefeitura Municipal), Escola Municipal de Teatro, Casa de Cultura da UEL e Fundação Araucária.


