Estar no elenco de "Velho Chico" provoca uma sensação de recomeço em Camila Pitanga. Quando era garota, ainda estudante do Tablado – renomado curso de interpretação no Rio de Janeiro – foi apresentada a Luiz Fernando Carvalho pelo pai, o também ator Antonio Pitanga. Na ocasião, Antonio fazia testes para alguma novela que seria dirigida por Luiz Fernando. E surgiu uma oportunidade para Camila interpretar uma cena e, caso fosse aprovada, estrear na televisão. Mas, naquele momento, ela não se sentia preparada. "Eu falei: 'Desculpa, mas não posso fazer isso'. E o Luiz foi muito respeitoso e disse: 'Claro, a gente vai se encontrar'", lembra.
De lá pára cá, Camila se tornou uma telespectadora assídua dos trabalhos do diretor. Por isso, quando surgiu o convite para interpretar a protagonista Maria Tereza, aceitou prontamente. "Era imperdível, era algo que estava para acontecer. Quando ele me chamou para a novela, foi falando desse primeiro encontro. Eu achava que ele nunca se lembraria disso, mas lembrou", surpreende-se.
Na televisão desde 1993, quando viveu a Vilma de "Sex Appeal", Camila cresceu assistindo às sagas românticas das novelas. E se empolga com o resgate do folhetim clássico proposto pela narrativa de "Velho Chico". "Estou com esse entusiasmo quase juvenil de falar desse lugar que retoma algo tradicional, mas, ao mesmo tempo, não se furta de pensar a contemporaneidade", avalia.

O elenco de "Velho Chico" fez uma intensa preparação de dois meses no galpão de Luiz Fernando Carvalho antes das gravações. Como exatamente foi esse período?
Fizemos um trabalho utilizando máscaras, desde a máscara neutra até as máscaras com expressão facial e máscaras que remetem a algumas entidades da natureza. Em alguns momentos, trabalhamos usando um pouco o repertório de bichos, natureza ou de estados da natureza, como fogo, céu, água, terra. Também tivemos um trabalho de "viewpoints", que foi um outro viés.

Em que sentido?
Trouxe todo um trabalho de jogo, de contracenar. No "viewpoints", a gente faz coisas muito simples, como sentar e andar, mas você precisa estar atento ao que o outro está fazendo. Não sei se isso fica claro aqui, mas é um trabalho de jogo, de despertar uma conexão de espreita e de escuta muito qualificada. Além disso, com a Lúcia Cordeiro, fizemos um trabalho de conscientização corporal, de lembrar pequenas sutilezas de mão, de musculatura. Tudo isso como maneira de provocar esses corpos, esses atores a estarem mais disponíveis, mais dispostos, mais conectados com a sua sensibilidade corporal e com a sua sensibilidade da escuta, da visão. Isso, em teatro, é muito comum. A gente trabalhou muito improvisação. Acabava que a gente tinha um despertar de um estado corporal e aquilo nos levava para algum momento da cena do personagem ou de relação entre os personagens. Fora isso, fizemos canto e prosódia.

Mas você já interpretou nordestinas antes, como a Esmeralda de "Porto dos Milagres". Sentiu alguma diferença na prosódia para esta personagem especificamente?
Já tinha feito baiana, mas agora se trata de uma Bahia do interior, é diferente. É uma Bahia sertaneja. Tem peculiaridades que, por mais que eu também seja filha de baiano, estou aqui cavando, elaborando como artesã da palavra, no detalhe. A gente está buscando isso, lavrando isso na palavra e nas posturas também. Tem uma temporalidade de fala muito específica que não é com o ritmo da cidade. Na cidade, tem um frenesi. Acho que, quando você vai para o interior, tem uma meditação, um rudimentar, uma elaboração, uma temporalidade muito específica que também tem a ver com a linguagem que o Luiz Fernando propõe dos silêncios. Os silêncios falam.

No primeiro mês de exibição da novela, sua personagem foi interpretada primeiro por Isabella Aguiar e, em seguida, por Julia Dalavia. Você fez algum trabalho em conjunto com as atrizes para encontrar o tom de Maria Tereza?
Sim. A gente trabalhou, se alimentou, se afetou uma com a outra. Divido a personagem com duas grandes atrizes, embora jovens. Estou me alimentando muito do trabalho delas. Tive a oportunidade de assistir às gravações porque queria sentir no local como aquilo estava se dando. Nas improvisações, a gente bebeu da mesma água, dividiu coisas que não estavam nem escritas. Em cena, a Julia passou pela experiência de ter um filho e eu pude, na experimentação, vivenciar isso com ela. Na brincadeira, no lúdico, muitas vezes, eu brincava de ser a Maria Tereza de 6, 7 anos, já sendo uma mulher de 38 anos.

Acompanhar o resultado desse trabalho na tela, de alguma forma, influencia você para esta nova fase da trama recém-iniciada?
Completamente. Me estimula, me instiga, me emociona muito. Acho que a palavra é emoção. A primeira vez que vi o "teaser", meu coração veio na boca. Puxa, que oportunidade poder fazer algo com tanto vigor artístico e sabendo que tudo isso é resultado desse trabalho, dessa troca, dessa comunhão, dessa aposta de todos os artistas.

Então, no que Maria Tereza instiga seu trabalho de atriz?
É uma personagem que está em uma crise existencial, que está trocando de pele, querendo recuperar uma origem mais conectada com sua juventude, com a sua essência. É uma mulher que tem muitas contradições e não muitas certezas. É um papel com muitas nuances. E é um desafio estar nesse caldeirão de talentos que tem nessa novela.

Como você enxerga o fato de a Globo optar por levar ao ar no horário nobre uma novela retratada fora do habitual eixo Rio-São Paulo?
Acho que o Brasil é tão rico. Tem de ter esse trânsito mesmo, é interessante a gente conhecer o Brasil nas telas. A gente vê agora em primeiro plano o Nordeste, mas que venham novelas também que falem do Sul. O Brasil tem essa riqueza cultural que precisa ser vista por todos os cantos, por todos os lados e por todas as culturas.

Paz de espírito
O jeito doce e simpático de Camila Pitanga parece reverberar na forma como ela lida com as críticas. Em seu último trabalho, "Babilônia", sua personagem, a mocinha Regina, não foi muito bem recebida pelo público. O que pôde ser conferido, principalmente, através das redes sociais, em que "pipocavam" comentários ácidos sobre a protagonista. Mas a atriz não se deixou abalar pelo que leu. Pelo contrário. "No início, fiquei assim: 'Caramba, é isso que estão falando?'. Mas depois entendi que o código também é outro e me diverti com isso", conta.
Assumir o posto de mocinha de uma novela, aliás, não é tarefa fácil. Além da responsabilidade de estar à frente de uma história, em muitos casos, esse tipo de personagem acaba sendo considerada "chata" por seu próprio perfil psicológico. Mas Camila prefere não pensar nisso quando é escalada para interpretar uma protagonista. "Eu penso no meu fazer. Claro, as redes sociais podem ser, sim, um termômetro. Mas em que medida vou levar isso como meu único norte? Eu tenho de lidar com a minha intuição, com a troca do trabalho que estou fazendo", pondera. (L.B.)


Instantâneas
A Bebel, de "Paraíso Tropical", de 2007, representou um momento de virada na carreira de Camila Pitanga.

Em 1984, aos seis anos de idade, ela foi figurante no filme "Quilombo", de Cacá Diegues.

Camila é irmã do também ator Rocco Pitanga.

A atriz teve uma experiência como apresentadora à frente do "Som Brasil".

Imagem ilustrativa da imagem Encontro marcado
"Puxa, que oportunidade poder fazer algo com tanto vigor artístico e sabendo que tudo isso é resultado desse trabalho, dessa troca, dessa comunhão, dessa aposta de todos os artistas", emociona-se a atriz
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