Encontro de pérolas
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quinta-feira, 08 de abril de 1999
Zeca Corrêa Leite 
Três grandes cantoras, três carreiras distintas e um único show onde o trio se encontra para mostrar a sua arte. Em suma este é o espetáculo Pérolas Negras, que será apresentado hoje e amanhã no Teatro do Paiol. As negras pérolas são nada mais nada menos que Carmen Costa, Alaíde Costa e Dona Ivone Lara.
O show é o resultado de uma grande reunião que aconteceu há mais de um ano em São Paulo, e que, pela extensão da lista de artistas, fez com que cada uma tivesse curto espaço de tempo no palco. Dali saiu um núcleo integrado por cinco nomes - além das três constavam Aurea Martins e Leci Brandão. Devido a outros compromissos, o espetáculo resume-se ao fino trio.
Agência EstadoDona Ivone Lara: autora de mais de 300 canções, ela compôs sua primeira música aos 12 anosFãs de carteirinha que na saída do teatro dispõem-se a comprar discos e livros, devem ir preparados ao Paiol. Tanto Ivone como Alaíde colocarão CDs à venda, com direito a dedicatória e autógrafo. Carmen Costa terá ali o livro Com Fé Eu Vou, onde é relatada sua meninice no Rio de Janeiro. Acompanha o CD do mesmo título, feito somente de rezas.
Ficarei feliz em ver o Paiol lotado, disse Carmen para a Folha 2. Ela esteve ali nos anos 70, cantando para um auditório lotado, numa época em que o teatro era tido nacionalmente como o templo curitibano da MPB. Esse foi um dos endereços visitados pela intérprete de sucessos como Eu Sou a Outra, de Ricardo Galeno, e Ronda, de Paulo Vanzolini.
A estréia na cidade foi em 1941, no Cassino Ahu. Nessa temporada aprendeu a música de Luiz Gonzaga, Chamego, e apresentou-o como compositor. Enfim, histórias da música brasileira que os livros não relatam. Voltaria muitas vezes depois, criou amizades profundas e hoje suspira pelos amigos mortos.
Agência EstadoAlaíde Costa: em 1959 ela conheceu João Gilberto e tornou-se uma intérprete da bossa novaO diretor teatral Oraci Gemba é dos mais pranteados. Curitiba deixou de ser a mesma com sua morte. Ando cheia de recordações, confessa Carmen. Apesar do descaso das gravadoras e da mídia com os grandes artistas do passado, o reconhecimento persiste nos valores das novas gerações. Elymar Santos convidou-a para participação especial em seu show, que correu todo o Estado do Rio de Janeiro.
Durante um ano Carmen esteve com ele desde feiras agropecuárias a espaços como o Canecão, Imperator, Metropolitan. Sempre fui muito bem recebida pela platéia, conta satisfeita. Eram 15 minutos onde trazia ao público parte dos sucessos que mostrará no Paiol. Aos 78 anos de idade e 65 de carreira, é a história viva da música brasileira.
Um dia Elis Regina chorou no meu ombro, dizendo que gravara uma música em minha homenagem. Logo depois era Clara Nunes em outro ombro. As duas num dia só!, diz admirada, puxando imagens da memória.
Alaíde Costa, quando gravou seu primeiro disco em 1957, foi considerada cantora revelação do ano. Em 1959 conheceu João Gilberto, no exato momento em que a bossa nova nascia para apaixonar e escandalizar ouvintes Brasil afora. Alaíde não pensou duas vezes para ser uma das intérpretes de primeira hora do movimento bossanovista.
Carioca de nascimento, mudou-se para São Paulo em 1962 e dali nunca mais saiu. Mais conhecida pela maneira intimista de cantar, Alaíde Costa é também compositora. Tem parcerias feitas com Vinícius de Moraes, Geraldo Vandré, Tom Jobim, Paulo Alberto Ventura e Johnny Alf.
Pérolas Negras é um show muito legal para quem ouve e para quem participa. Ele é envolvente, descreveu a artista em entrevista. Um dado que acho importante é que somos cantoras de estilos completamente diferentes. Não somos três sambistas.
É um momento enriquecedor para a platéia. Você pode gostar mais de uma artista que da outra, mas de qualquer maneira estará participando de um espetáculo feito com muito amor, com muita sinceridade que é a marca de cada uma de nós, continua Alaíde.
Uma das primeiras coisas que Dona Ivone Lara cita é a sua estréia em Curitiba, nos áureos tempos do Projeto Pixinguinha. Ela ainda não era um nome consagrado junto ao grande público, mas a receptividade no Guairão foi tanta que jamais se esqueceu. Estou maravilhada em voltar a essa cidade, agora acompanhada de minhas amigas.
Satisfeita com a vida e trabalhando na divulgação de seu sexto disco, lançado há seis meses, Dona Ivone Lara saúda o espetáculo: Nosso encontro é ótimo, é muito bonito. Carioca nascida em 1922, criou sua primeira música aos 12 anos. Foi a primeira mulher a compor samba-enredo, e é madrinha da ala dos compositores da Escola de Samba Império Serrano.
Poderia ter seguido a carreira artística na juventude, mas o destino levou-a para outras paragens. Trabalhou durante muitos anos como enfermeira, aposentou-se e a música, que se evidenciara tão cedo em sua vida, voltou então com carga total.
Autora de mais de 300 títulos, tem canções gravadas nas vozes de Gal Costa, Maria Bethânia, Caetano Veloso, Cristina Buarque de Holanda, Gilberto Gil entre outros. Graças a Deus a carreira vai bem, encerra.


