O avião partiu de Salvador com destino ao Rio de Janeiro. No mesmo vôo, duas celebridades: Gilberto Gil e Milton Nascimento. Aconteceu há quatro anos, mais ou menos. Pois bem, sentaram-se lado a lado e lá pelas tantas, quando a conversa estava engatada, Gil lembrou-se de contar uma história ao companheiro. Em 1977 ele havia feito uma música em homenagem a Milton Nascimento. Que só não foi incluída no disco ‘‘Refavela’’, do mesmo ano, por um motivo : a canção se perdera. Ou seja, o tributo (letra e melodia) havia sumido dias antes de o compositor baiano entrar em estúdio. Como? Nem Gil sabe explicar direito. Sumiu, pronto, acabou. Milton ouviu a história e, assim se crê, conformou-se.
Tempos depois daquele encontro, a música, chamada ‘‘A Sala do Som’’, foi recuperada pelo pesquisador Marcelo Fróes. Gil, que estava preparando ‘‘Quanta’’ (1997), resolveu incluí-la no disco. Mais: convocou e Milton aceitou repartir o microfone na faixa que dá nome ao trabalho. Só que a união de dois importantes nomes da história da MPB não poderia ficar restrita apenas àquela faixa. E não ficou. Tanto que está chegando às lojas ‘‘Gil e Milton’’, um disco que já nasceu fadado a ser histórico. Ou, no mínimo, antológico. ‘‘Em se tratando de um disco de dois personagens históricos da música brasileira acho que ele acaba adquirindo esse valor’’, admite Gilberto Gil. ‘‘Eu acho que esse disco é uma felicidade só’’, resume Milton. Os dois conversaram com a Folha2, por telefone.
No total, 15 canções das quais apenas cinco foram compostas por Milton e Gil. ‘‘Sebastian’’, a primeira faixa, foi quem deu o pontapé inicial na parceria até então inédita. A letra coube a Milton Nascimento. E aconteceu por insistência de Gil: ‘‘Disse a ele que estava com saudades de ler alguma coisa que viesse diretamente de seu coração’’, recorda-se o compositor baiano. Diante do apelo, Milton topou e fez uma bela súplica a São Sebastião para que, na condição de padroeiro, olhasse melhor para o Rio de Janeiro. Eis o grande momento do disco. Eis a síntese do trabalho. Nas outras quatro canções os dois se revezam como letrista e melodista.
‘‘Gil e Milton’’ é basicamente um disco de releituras. Ou melhor, um passeio pelas referências musicais de ambos. Lá estão, por exemplo, ‘‘Maria’’ (Ary Barroso/Luiz Peixoto), ‘‘Baião da Garoa’’ (Luiz Gonzaga/Hervé Cordovil) ou mesmo ‘‘Something’’ (do beatle George Harrison, cantada só por Gil, que a transformou num reggae) e ‘‘Yo Vengo a Ofrecer mi Corazón’’ (do argentino Fito Paez, interpretada belamente por Milton). O CD foi produzido por Guto Graça Mello, que sabiamente soube aglutinar a força musical de Milton Nascimento com o poderio sonoro de Gilberto Gil. Arranjos coletivos, com participações – aqui, ali ou acolá – de Wagner Tiso. A Gil Jardim coube arranjar e reger cordas e metais enquanto Márcio Lomiranda ficou com a programação de teclados em todas as faixas. Entre os convidados especiais, gente de peso como Naná Vasconcelos (berimbau e vozes em ‘‘Bom Dia’’) e gente de canto forte como o coro das meninas do Colégio São José (popularmente conhecidas como ‘‘As Garotas de Petrópolis’’, também em ‘‘Bom Dia’’).
Agora, há também a participação de gente que vive em outro universo musical bastante distante de onde habitam Gilberto Gil e Milton Nascimento. Quem? Sandy e Júnior!! Isso mesmo, os irmãos foram arregimentados para cantar ‘‘Duas Sanfonas’’. E fizeram bonito, hein!? Outro grande destaque do CD. Gil recorre a metáforas para explicar a participação de Sandy e Júnior. Diz que é como se fossem ele e Milton dois tios distantes, com hábitos diferentes (como ler bons livros, por exemplo) que resolvem um dia buscar os sobrinhos que gostam de surfe e videogames (!) para ir visitar o museu. ‘‘Sandy e Júnior são do mesmo mundo que meus filhos’’, resume. Então tá!
No entanto, foi ‘‘Bom Dia’’, canção de 67 feita por Gil e (olhem só) Nana Caymmi, que começou a direcionar o disco para o lado das regravações. ‘‘Quando nos sentamos para ver como seria o disco eu perguntei ao Milton: ‘o que você pensou?’ E ele falou ‘Ainda não pensei nada, mas eu quero gravar Bom Dia’’ . Milton concorda. ‘‘Fiquei louco para a vida inteira desde que ouvi essa música pela primeira vez. E durante esse tempo todo eu pedia para a Nana gravar e ela sempre dava as costas aos meus pedidos’’, informa bem-humorado. Outro fato engraçado ronda essa canção. ‘‘Quando perguntei ao Milton por que essa música, sabe o que ele me disse? Que essa música não existia, que era coisa da cabeça dele. E eu disse que existia sim. Parece papo de psicanalista, né?’’, diverte-se Gil.
A troca de gentilezas não ficou por aí. Na mesma ‘‘sessão’’, o compositor baiano disse que gostaria de regravar do colega de trabalho a clássica ‘‘Canção do Sal’’ . Mas, no disco, as homenagens mútuas não páram por aí – enquanto Gil saúda Milton através de um fragmento de ‘‘Ponta de Areia’’, a contrapartida acontece com Milton pinçando um trecho de ‘‘Palco’’. Os elogios não ficam apenas no disco. Nesse ponto Milton, quase sempre reticente, não poupa palavras carinhosas a Gilberto Gil: ‘‘Não foi nada difícil fazer esse disco porque ele é um artista completo. Quando ouço algo que Gil faz fico perplexo. É que apesar de termos maneiras diferentes de trabalhar eu consigo encontrar afinidades em seu trabalho.’’
Do outro lado, Gil recorre a palavras bem encaixadas, quase poéticas para falar da experiência de trabalhar com Milton: ‘‘Eu sempre tive um sentimento, um amor profundo por ele. Ainda na perspectiva de virmos a fazer um trabalho juntos me ocorria só uma coisa: que estaria ao abrigo daquele grande guarda-chuva que Milton é. Durante a gravação do disco eu chorei em vários momentos’’.
Loas à parte, ‘‘Gil e Milton’’ vem à tona sem conceitos ou inovadoras propostas estéticas. É um disco bem resolvido e sincero mesmo que decepcione um pouco pela pequena quantidade de canções compostas pelos dois. Mas há sinceridade na escolha do repertório alheio e qualidade nas cinco músicas inéditas. Mesmo com temperamentos musicais bem diferentes, Gil (sempre às voltas com o pop-rock) e Milton (quase sempre trilhando pelo caminho do jazz) conseguiram chegar a um, digamos, acordo amigável e promover uma troca de gentilezas sonoras. Mesmo que, ao final da audição, fique a sensação de que o disco incline-se mais para a densidade peculiar que ronda os trabalhos de Milton. Porém, Gil vibra bem (muito bem, aliás). Quem se não ele para provocar em Milton a vontade de revestir com um rockinho (mesmo que básico) a letra de ‘‘Lar Hospitalar’’?
Os clichês não poderiam faltar. E salve a Bahia de Gilberto Gil através de ‘‘Dora’’ (Dorival Caymmi). E salve as Minas Gerais de Milton Nascimento através de ‘‘Xica da Silva’’ (Jorge Ben). Então, salve salve, né? Menos mal: são os únicos momentos em que o disco descamba para baianices e mineirices fortuitas. No todo, ‘‘Gil e Milton’’ soa universal. Tão universal que está sendo lançado simultaneamente nos Estados Unidos, Europa e Japão. E vai para esses cantos do mundo com um aditivo importantíssimo: o brilhantismo de dois ganhadores do Grammy na categoria World Music – Milton foi premiado em 98 e Gilberto Gil em 99. ‘‘Mas o disco já estava sendo viabilizado antes mesmo de ganharmos o Grammy’’, avisa Gil. Por sua vez, Milton admite que o prêmio pode dar, sim, um empurrãozinho extra lá pras bandas de fora. ‘‘O Grammy ajuda. Esse prêmio abre muitas portas inclusive para quem só foi indicado’’, afirma ele. Que abram as portas necessárias já que ‘‘Gil e Milton’’ precisa, de fato e por merecimento, ser apreciado por meio mundo.

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