ENCONTRO DE DUAS ARTES
Zeca Corrêa Leite
De Curitiba
A corda ruiu./ Os santos caíram./ Estou só no deserto./ Ouço gemidos/ que vêm de longe./Ouço gritos/ que vêm de dentro. Estes versos castigados de solidão e desespero e que por muito tempo permaneceram engavetados fazem parte do livro de poemas Cantos do Desamor, de Adalice Araújo.
A professora e crítica de arte, que mantinha praticamente em segredo sua atividade literária, atravessou o muro da timidez e hoje, às 18h30, promove lançamento da obra no Museu de Arte Contemporânea. O volume estava pronto desde 1991. Eu e Heliana Grudzien (ilustradora) não sabíamos como trabalhar com a Lei de Incentivo, explica a autora.
Quando finalmente encontrou o caminho das pedras, não fez por menos imprimiu o livro na Polônia (sai mais em conta que no Brasil) e obteve um trabalho de excelente qualidade.
Adalice se diz co-autora dos Cantos, dividindo sua criação com Heliana, que tão bem traduziu em cores e formas aquilo que se exprimira em palavras. Como se os poemas pudessem ter duas leituras: a gráfica e a pictórica. Foi também a ilustradora que a incentivou a mostrar seus textos para o poeta Lindolf Bell.
Como resposta a essa prova de fogo, o escritor remeteu um texto apresentando a artista e a obra, intitulado Adalice Araújo: Ícones da Ausência. Adalice Araújo, abissal, visceral, na perda de tantos laços, entrelaços, sabe que o poema redime. Faz renascer das cinzas e, apesar de tudo, todos, a vida é uma gaivota indomável e selvagem no ritual eterno da vida, escreveu.
A tendência pelos versos está no sangue, segundo Adalice. Tive um irmão, Adauto Araújo, que era poeta, e embora esteja no esquecimento, acho que ele foi um bom poeta. Na adolescência convivi muito com os autores de que ele gostava Verlaine, Augusto dos Anjos, Edgar Allan Poe. Na adolescência também fui leitora voraz, confessa.
Sua vida, porém, tomou o rumo das artes plásticas. Até que, nos serões das madrugadas, os textos começaram a surgir espontaneamente. A escritora brinca dizendo que os anjos são os verdadeiros autores, porque sempre coube a ela simplesmente registrar. Se não registro, esqueço.
Eles não têm retoques, estão no livro assim como vieram, garante. Justamente por isso, por não haver censura, há um ato de despir-se. Mas a autora diz que não se entrega ao texto porque ele nasce pronto, vem sem máscaras. Aliás, até me admirei quando Lindolf Bell, que é um poeta, falou em poema. Eu não sabia como chamar a isto. São lembranças, de certa forma é como se fosse um diário existencial.
Voltada às suas atividades, Adalice não se programa para a vertente literária, embora tenha um novo livro em fase de gestação. Quando os anjos resolvem colocar os textos na minha cabeça, eles surgem. E como tudo é feito de forma espontânea, não há sofrimento. Diria que é um despojamento, é também quase uma confissão.
Cantos do Desamor, livro de poemas de Adalice Araújo. Lançamento hoje, às 18h30, no Museu de Arte Contemporânea, Rua Desembargador Westphalen, 16, em Curitiba.





