ENCONTRO DE CORDAS
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sexta-feira, 14 de dezembro de 2001
Ranulfo Pedreiro<br>De Londrina 
Normalmente, quando se fala em concerto de violão erudito no Brasil, o repertório se dirige quase automaticamente a Villa-Lobos ou Joaquin Rodrigo, com seu ''Concerto de Aranjuez''. É justamente para nadar contra a maré que o violonista Fábio Zanon escolheu uma peça menos conhecida dos brasileiros para a apresentação de hoje com a Orquestra de Câmara Solistas de Londrina.
A Orquestra, que está completando três anos, toca a partir das 20h30 no Teatro Crystal Palace, em Londrina. O concerto é um especial de Natal e tem entrada franca. É a oportunidade de conferir a desenvoltura de Zanon, instrumentista que há anos vem se destacando no exterior.
''Concerto nº 1 para Violão e Cordas'', de Mauro Giuliani, é uma das poucas obras compostas para violão e orquestra de cordas. O compositor foi um importante violonista, contemporâneo de Paganini, o que explica seu caráter virtuosístico. ''É um concerto bem-humorado'', comenta Zanon. Além de Giuliani, o repertório traz obras de Corelli, Bela-Bartók e Grieg.
Zanon possui um currículo invejável para quem se arrisca pelas seis cordas. Ele interpreta as peças mais importantes para o instrumento, incluindo aproximadamente 30 concertos para violão e orquestra. Estudou com o pai, um amador que abriu as portas para empreitadas mais complicadas, como a obra de Villa-Lobos um divisor de águas na execução do instrumento , que aprendeu ainda criança.
A obra de Villa-Lobos para violão solo continua um desafio para os violonistas, principalmente no aspecto interpretativo. Fábio Zanon conseguiu tanta intimidade com essas composições que se destacou ao gravá-las, arrancando elogios em diversos países. A maioria destacou a interpretação personalizada.
Mas Zanon também encarou a difícil escola espanhola, vencendo o 30º Concurso Francisco Tarrega. Somado à vitória do 14º Concurso Fundação Americana de Violão dos Estados Unidos, ele ganhou um passaporte para salas de concertos tão badaladas como o Wigmore Hall de Londres e o Carnegie Hall de Nova York. O destaque rendeu-lhe também três CDs apenas um deles, ''Sonatas Latino-Americanas para Violão'' chegou ao Brasil. O reconhecimento internacional não o afastou dos palcos nacionais recentemente ele esteve se apresentando em Santa Catarina.
O repertório para violão na música considerada erudita costuma ser restrito a poucos autores no Brasil. Uma das causas seria a preferência dos dirigentes de orquestras pelas composições mais conhecidas, como o citado ''Concerto de Aranjuez'' Zanon não critica a obra, mas deixa claro que também existem várias outras peças para serem tocadas. Outro motivo seria a relutância dos próprios solistas em aprender obras com possibilidades mais remotas de execução.
Quem, por exemplo, se aventurar pelo repertório de compositores nacionais pode se surpreender pela falta de publicação. ''Francisco Mignone tem uma obra do mesmo tamanho e talvez da mesma importância que Villa-Lobos, mas ainda não foi gravada em CD. Devo gravar, em fevereiro, os '12 Estudos' de Mignone. Acho que vai ser um estouro, faz um ano que estou tocando e todo mundo sai comentando'', ressalta Zanon.
O contato com a Orquestra de Câmara Solistas de Londrina foi feito por intermédio de um guia dedicado à movimentação musical brasileira. ''Estávamos atrás dele, é um brasileiro conhecido no mundo todo. E esse concerto de cordas com violão não é muito comum no país'', explica a pianista Irina Ratcheva, dos Solistas de Londrina.
Como a Orquestra vem se dedicando a interpretar compositores brasileiros Guerra-Peixe, Camargo-Guarnieri, Francisco Mignone e o próprio Villa-Lobos , houve uma identificação. ''Durante o período militar esses compositores perderam o status intelectual no Brasil. Esse espaço foi ocupado por compositores populares. E ainda não existe aqui uma indústria para publicar e gravar música. As pessoas se desinteressaram, não há distribuição. Por isso eles são pouco tocados. É uma displicência das próprias pessoas envolvidas com música no país'', critica o violonista.
O spalla Evgueni Ratchev, dos Solistas de Londrina, faz coro à argumentação de Fábio Zanon: ''Não existem gravações de qualidade para se distribuir às orquestras. Às vezes, uma orquestra coloca a música no repertório só para justificar''.
Para divulgar um repertório nacional, a Orquestra de Câmara Solistas de Londrina vai lançar, no início do ano que vem, um CD com obras de Carlos Gomes, Villa-Lobos, Cláudio Santoro, Ernani Aguiar, Guerra-Peixe e Alberto Nepomuceno. O lançamento oficial está marcado para 22 de março.
Orquestra de Câmara Solistas de Londrina Concerto Especial de Natal, com o solista Fábio Zanon ao violão. Hoje, às 20h30, no Teatro Crystal Palace, no Crystal Palace Hotel (Rua Quintino Bocaiúva, 15), em Londrina. Entrada Franca.


