Devem ter sido altos papos-cabeças. Daqueles, sabem?!. Encontro de amigos mantidos no final do ano passado. Caetano ouviu Jorge. Que, por sua vez, expôs suas análises acerca do mundo, do todo, do tudo, do nada, do caos, da Teoria do Kaos, das profecias, das torres que caem, do humano demasiadamente humano, de coisas que ele coloca reparo, processa e transforma em letra, música, livros, em obras. Filho de Canô, amigo de longa data desde a diáspora londrina que sempre deu ouvidos ao amigo ''maldito'' desta vez ampliou a audição e deu no que deu. E deu bem dado. Mautner, um intelectual em pele de esquisito, acabou por instigar o mano de Bethânia o dono do leãozinho, o paquerador do menino do Rio, o que outrora dançava para o corpo ficar odara, o marido da Paulinha e outras qualificações assopráveis ao ponto de propor fazer um disco juntos. E Mautner conseguiu o que parecia ser causa perdida: tirar a carranca aristocrática e ar classudo que esse doce de coco baiano, quase sempre apreciável, vinha envergando desde que se autocondecorou cavaleiro de fina estampa.
''Zabé come Zumbi/ Zumbi come Zabé'' é o refrão, extraído de ''Feitiço'' (Caetano Veloso), que prende a gente mais que referências à clássica canção de Noel Rosa, a Vigário Geral, Fundo de Quintal, Candeal, guitarras de rock and roll, batuque de candomblé (aquele abraço a miss Sangalo?). É a segunda faixa de ''Eu Não Peço Desculpa'', nome do disco que Caetano Veloso e Jorge Mautner estão botando e dando o que falar na roda. Saiu dos versos intencionalmente breguérrimos de ''Todo Errado'', um ''rock-balada-sertanejo-mariachi'', como define Mautner. Assusta à primeira ouvida.
Aos bons de coração, um aviso: ''Eu Não Peço Desculpa'' é um armarinho de miudezas. E como todo estabelecimento desse porte, tudo é muito informal. E o disco da dupla Caetano & Mautner dispara irreverências, ironias finas (e grossas), clichês, impertinências e pouca profundidade política se alguém quiser cavar esporros maiores ao sistema, ao governo, aos cambaus, fique à vontade. A pequena cutucada estaria em ''O Homem Bomba'', um discurso bastante manjado, mas com uma pegada musical deliciosa.
''Eu Não Peço Desculpa'' é um disco anticonceitual, atemporal, anti-quase- tudo. Pende mais ao anticonvencionalismo de Mautner do que à alegria, alegria adormecida de Caetano Veloso. Numa sentada é bem provável que se ouça o álbum pulando faixas. Mas se entrar na onda dos dois, é possível tirar bom proveito do CD. Pós-algo-mais ma non troppo, entende?
Fosse apenas Mautner, provavelmente diriam: ''mais um disco de Mautner''. Mas o diferencial é que o primo pobre recebeu ajuda do primo rico, no caso Caetano Veloso. E aí, claro, tudo muda de figura ora, ora é muito mais prazeroso ''criticar'' Caetano do que ''louvar'' a marginália de Mautner. ''Eu Não Peço Desculpa'' é um prato cheio para críticos e síndicos de condomínios onde habita o primeiro escalão da MPB. Abaixo o comprometimento com causas. Acima a irreverência.
Não há nenhuma canção moldada às rádios. Só se algum santo milagreiro daqueles de pés chamuscados por anos de velas transformar alguma faixa de ''Eu Não Peço Desculpa'' em sucesso comercial. E aí é que reside o baratotal. Caetano e Mautner se deram o direito de entrar nos estúdios e registrar o que bem lhe vieram às respectivas telhas. E bem fizeram eles em juntar os trapinhos e fazer uma multicolorida colcha de retalhos musical.
Catorze faixas, a maioria composta por Mautner das quais quatro assinadas com o eterno parceiro Nelson Jacobina. Com Caetano, apenas três. No material de divulgação, coube a Jorge explicar com palavras empoladas cada uma das canções do disco. E para isso ele evoca Jesus, Dostoievski, Gogol, Gilberto Freyre, só para citar alguns. A Mautner o que é de Mautner. E é dele para ele mesmo ''Urge Dracon'', segundo o próprio um hino-exaltação justificável. ''Eu Sou Doidão'' com sua letra sem muito pé nem cabeça não seria mais auto-tributável?
Vamos às delícias. Em ''Tarado'', a dupla reabilita as feias imperdoáveis de quem Vinicius falou numa faixa interpretada sentindo a maresia, tá ligado? Teria sido feito também para Luana Piovani, a musa escolhida pelos músicos? Aliás jovens talentos como Moreno Veloso, Pedro Sá, Domênico e Kassim (co-produtor). ''O Namorado'', outra pepita, é uma resposta paródica à ''Namorada'' de Carlinhos Brown com ritmo de roquinho anos 60.
Troca de gentilezas. Caetano interpreta ''Maracatu Atômico'' e compromete a auto-estima. Ora, atrás do arranha-céu, tem o céu, tem o céu e tem a versão definitiva que Gilberto Gil deu à música de Mautner. Por falar em Gil, o próprio faz voz em ''Feitiço'' e assina, com Mautner, a dúbia ''Coisa Assassina''. No toma lá dá cá, Jorge escolheu ''Cajuína'' e a transformou numa espécie de ''xote eslavo''. Muito bem, seu Jorge! Justiça seja feita: Caetano dá show de bola em ''Lágrimas Negras'' (Mautner). Valeu, velô!
Como não se trata de um disco austero, qual o problema em Caetano interpretar languidamente ''Voa, Voa, Perereca'' (Sérgio Amado), canção de duplo sentido, ou junto com o companheiro encerrar os trabalhos com ''Hino do Carnaval Brasileiro'' (Lamartine Babo)? Nenhum. ''Eu Não Peço Desculpa'' resvala deliciosamente no deboche. Deboche com fartas doses de inteligência e belas tiradas. Profecia de Mautner: ''Ou o mundo se brasilifica ou vira nazista''. Sincretismo de Mautner: ''Jesus de Nazaré e os tambores do Candomblé''. Salve Jorge!!

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