Encontro com Clarice
ReproduçãoEntrevista com Clarice Lispector é atração hoje à noite, na TV CulturaClarice Lispector dizia de si própria que, ao contrário das mulheres que cosem para fora, ela cosia para dentro. Uma boa definição, sem dúvida, mas não o suficiente para dar conta da riqueza psicológica e da inquietação metafísica dos livros desta extraordinária e original escritora, cujas histórias, onde quase nada acontece (entenda-se: quase nada em termos de ação externa, objetiva), buscavam trazer para o domínio das palavras aqueles ‘‘instantes de compreensão fechada, ( ... ) sem entendimento explícito e sem palavra’’ (cf. Benedito Nunes, num dos ensaios de ‘‘O Dorso do Tigre’’, Perspectiva, 1976, 2ª ed., p. 100).
Autora de ‘‘Laços de Família’’, ‘‘Perto do Coração Selvagem’’, ‘‘A Maçã no Escuro’’, ‘‘A Paixão Segundo G.H.’’, ‘‘A Hora da Estrela’’, entre outras obras de notável sensibilidade, foi uma personalidade que raramente se expôs às câmeras de televisão, o que confere, portanto, um caráter de ocasião ‘‘histórica’’ à entrevista que concedeu em 1977 (o ano de sua morte) ao programa ‘‘Panorama’’, da TV Cultura. Tal entrevista - que será mostrada pela primeira vez na íntegra - é a atração da emissora nesta quinta-feira, às 22h30, dentro da série comemorativa ‘‘30 Anos Incríveis’’.
Inquietações
Como ‘‘aperitivo’’ à entrevista de Clarice Lispector, vão aqui alguns trechos selecionados de sua obra que constituem amostras da dimensão filosófica e existencial das suas inquietações e dos seus insights:
- ‘‘ ... a explicação de um enigma é a repetição do enigma. O que És? e a resposta é: És.’’ (‘‘A Paixão Segundo G.H.’’)
- ‘‘A nostalgia não é do Deus que nos falta, é a nostalgia de nós mesmos que não somos bastante; sentimos falta de nossa grandeza impossível - minha atualidade inalcançável é o meu paraíso perdido.’’ (id.)
- ‘‘A verdade não faz sentido, a grandeza do mundo me encolhe.’’ (id.)
- ‘‘Amor é quando não se dá nome à identidade das coisas?’’ (id.)
- ‘‘ ... tenho que passar a viver, e não apenas a me prometer a vida’’. (id.)
- ‘‘Na distração aparece Deus.’’ (‘‘A Hora da Estrela’’)
- ‘‘ ... é assim porque é assim. Existe no mundo outra resposta?’’ (id.)
- ‘‘Um dia, depois que nascemos, nós nos inventamos.’’ (‘‘A Maçã no Escuro’’)
- ‘‘Fui até onde pude. Mas como é que não compreendi que aquilo que não alcanço em mim ... já são os outros?’’ (id.)
Circuito alternativo
- O mais tradicional, democrático e despretensioso dos bares alternativos de Curitiba, o Lino’s Bar (que seu proprietário, o sessentão Antonio José Lino, faz questão de chamar de boteco mesmo) reúne no próximo domingo mais um punhado de bandas de garagem - entre elas, Whir, Escola de Balé, Porno Star -, que estarão fazendo shows com entrada franca. A maratona - regada a cerveja com preço decente - começa por volta das 16 horas e não tem horário para terminar.
- Produzindo à tarde os seus escatológicos desenhos (no mínimo, incômodos, mas bem realizados) e à noite ‘‘dando uma força’’ ao Lino atrás do balcão do bar, Mário César Barbosa Ramos, o ‘‘Marião’’, ainda acha tempo para organizar - desta vez com a colaboração do fotógrafo Demétrio Chaves - a segunda edição da coletiva ‘‘IDeOsphera’’ (performances, instalações, pinturas, esculturas, fotos, desenhos e zines), cuja inauguração está agendada para o dia 10 de dezembro, na CEU (Casa do Estudante Universitário), em Curitiba. Antes disso, lança no Lino’s (em tempo: o bar fica na esquina da Rua Augusto Stellfeld com Alameda Cabral) uma HQ recheada de pesadelos e com roteiro assessorado pelo poeta Edson ‘‘Aranha’’ de Vulcanis. Depois eu conto os detalhes.
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