Encharcados de melodia
A banda carioca Pelvs lançou o melhor álbum do pop nacional em 97
Nelson Sato
Londrina

DivulgaçãoPelvs:
privilegiando
a melodiaA Pelvs foi além. Com o álbum Members to Sunna, a banda carioca eleva para outro patamar uma vertente musical que no Brasil recebeu rótulos diversos como guitar rock, alternativo e indie.
Ignoradas pelas rádios, desprezadas pelas gravadoras e cultuadas por uns poucos antenados em novas tendências, as bandas do estilo já inscreveram seus nomes no pop nacional com alguns dos mais estimulantes álbuns lançados nessa década.
Na trilha de Pin Ups, Low Dream, brincando de deus e dezenas de outras menos conhecidas, a Pelvs chega ao seu segundo disco desafiando críticos empedernidos (que não admitem bandas locais cantando em inglês) e até antigos seguidores. ‘‘Muita gente estranhou’’ - conta o baixista Rafael Genú. ‘‘Ouvi cobranças do tipo: ‘virou bandinha bem-comportada? Cadê a porradaria?’’.
ReproduçãoMembers to Sunna:
segundo disco do
grupo traz
canções acústicas
O motivo é a nova direção musical adotada pelo trio, que substituiu os timbres microfonados do disco de estréia pela abordagem acústica e melódica das canções. A mudança transbordou em faixas memoráveis como ‘‘Move’’, ‘‘The mixer’’, ‘‘(we know) jah will never let us down’’ e ‘‘heavy mean way’’ - todas com vocais contidos e algumas trazendo arranjos com inclusão de piano, orquestração e trumpetes - algo inimaginável até pouco tempo na cena.
Members to Sunna foi gravado no estúdio Freezer, de propriedade da própria banda. Está sendo lançado pelo selo Midsummer Madness, que colocou simultaneamente na praça o primeiro CD dos Cigarettes - outro adorável grupo carioca - e prepara a reedição (na base do ‘‘dois em um’’) dos dois álbuns gravados pelo Second Come.
A seguir, leia alguns trechos do depoimento que Genú concedeu por telefone.
Endereço
Selo Midsummer Madness: c/Rodrigo Lariú. Rua Lauro Muller, 26/805 - Botafogo - Rio de Janeiro - RJ - CEP 22290-160. Tels. (021) 542-6810, 546-8163 e 546-8184. Home Page: www.mmrecords.com.br


Mudança
‘‘Nas primeiras demos e no primeiro CD, nosso som era mais rasgadão, barulhento. Depois começamos a ouvir Teenage Fanclub, Loyd Cole e foi havendo um deslocamento de interesses. Começamos a nos preocupar mais com a melodia. Vimos a possibilidade de fazer um disco pop, bem composto e bem conceituado - pop, mas ao mesmo tempo sem apelo comercial para tocar em rádio. A idéia era fazer o disco da nossa vida. O resultado é que é um disco para todo mundo ouvir e falar: ‘essa banda tem algo interessante’.
Cena guitar
‘‘A cena guitar não tem espaço no Brasil. Continua maldita. Desde o começo da década, a coisa só piorou no Rio. Antes existia a rádio Fluminense FM que tocava Pelvs, Second Come etc. Hoje as rádios não tocam nada. Algumas emissoras que se dizem rock, só tocam Raimundos, Ostheobaldo e outros grupos do gênero. Como mudar isso? É difícil. O esquema de divulgação continua se fazendo através de fanzines e shows. A Internet também está ajudando um pouco. Na mídia, só uns poucos resistentes abrem espaço para as bandas’’.
Exterior
‘‘Mandamos algumas cópias do CD para o Fernando Naporano (crítico musical e ex-líder da banda paulistana Maria Angélica Não Mora Mais Aqui), que mora em Londres. Uma gravadora chegou a fazer um primeiro contato, querendo distribuir o disco lá fora, mas não deu retorno. Houve outra, americana, que escreveu dizendo ‘quando vocês tocarem nos arredores de Boston, nos liguem’. Pô, aí fica difícil!’’
Gravação
O disco foi bastante elaborado. A coisa toda começou com uma demo que lançamos no começo do ano passado e que trazia sete músicas do primeiro disco em versões acústicas e três outras faixas com cada um dos integrantes cantando e tocando violão sozinhos. Essa demo serviu como um estudo para o novo trabalho. A gente queria dar uma sonoridade coesa, coisa de viadinho, cheio de frescuras. Quando entramos para gravar, já tínhamos as idéias prontas na cabeça. Como estúdio é completo, pudemos usar um milhão de recursos. A gente pirou’’.
Ao vivo
Acho que a Pelvs é uma banda mais de gravação do que de shows. Nossos shows são zoneados, com o repertório decidido na hora de subir no palco. A gente também não é de ensaiar muito. Mas para divulgar o novo CD, estamos tocando com duas formações. Para um tipo de show, onde tentamos manter fidelidade aos arranjos do disco, incluímos um tecladista e outro guitarrista que também toca trumpete. É assim que estamos tocando no Rio e em algumas cidades que têm um som legal. Já para outros lugares, a gente leva o show só com trio. Aí, é a maior largação. Nesses shows sempre tocamos covers e reproduzimos a zoeira do primeiro disco e das primeiras demos.
Preconceito
‘‘Muita gente estranhou: ouvi comentário do tipo ‘virou bandinha bem-comportada, cadê a porradaria, solo de plug?’. Não é todo mundo, mas tem uma parte do povo indie, guitar, sei lá o nome dessa porra, que é cheia de preconceitos. Falam que cuidar da melodia é coisa de boiola. Os caras não levam em conta a música. Esse povo que diz gostar do Sonic Youth, que é o ícone da experimentação, na verdade não aceita experimentação. Esse disco é outra viagem. E o próximo vai ser outra viagem bem diferente. Estamos querendo fazer um disco de guitarra. O Gustavo até comprou um amplificador valvulado. Mas não vai ter nada de Sonic Youth, vai ser outra coisa’’.

mockup