Ao ser convidado a escrever um livro sobre um dos sete pecados capitais, o escritor e jornalista Zuenir Ventura não pensou duas vezes: escolheu a inveja. ‘‘É mais complexo’’, argumenta. Mas, ao pesquisar o assunto e escrever o livro, não sabia por onde começar. Chegou a ter inveja de colegas como João Ubaldo Ribeiro e Luis Fernando Veríssimo, que escolheram respectivamente a soberba e a gula. Agora, após dois anos, o jornalista publica a primeira obra da coleção ‘‘Os Sete Pecados Capitais’’, da Editora Objetiva. Ao contrário de ‘‘1968, o Ano Que Não Terminou’’ e ‘‘Cidade Partida’’ - os outros livros de Zuenir - ‘‘Inveja, Mal Secreto’’ mistura ficção e realidade. Em vez de fazer uma dissertação sobre o tema, o jornalista reuniu histórias pitorescas, frases de gente famosa e definições de vários autores sobre o assunto.
Pela primeira vez, Zuenir inseriu histórias da própria vida numa publicação. Dois meses depois do convite para escrever a obra, descobriu que estava com câncer na bexiga. Bastante deprimido, tentou retardar os primeiros capítulos. Mas, ao pesquisar mais sobre a inveja, descobriu algumas analogias entre o pecado e o câncer. Assim, além de relatos curiosos, como as visitas a um terreiro de candomblé, Zuenir permeia o livro com o drama da doença.
O livro é, na verdade, um making of da obra. Essa era a idéia inicial?
Zuenir Ventura - Digamos que eu não tinha idéia no começo. Estava à procura. Comecei a me interessar pelo tema. Mas quanto mais eu lia, mais percebia que tudo já havia sido escrito. Foi aí que passei a trabalhar em terreiros e comecei a achar isso interessante. Mais do que eu poderia revelar sobre a inveja pesquisada. A idéia foi se impondo. Alguém até me disse que o livro havia se imposto a mim e eu respondi que era verdade. É um making of especial, porque geralmente você faz o filme para depois fazer o making of. Aqui é tudo misturado: o making of é concomitante ao próprio livro.
O que você descobriu sobre a inveja?
Zuenir Ventura - A meu ver, a inveja é o pecado mais complexo, que mobiliza mais sentimentos na gente e sobretudo é um pecado muito ligado ao mal. Hoje, se tivesse que escolher, escolheria o tema novamente.
Você diz no livro que várias classes profissionais são invejosas. E a dos escritores? Acontece de se ter inveja da vendagem do colega?
Zuenir Ventura - Um dos objetos de inveja mais evidentes no Brasil é o Paulo Coelho. Ele é um exemplo gritante de uma pessoa invejada pelo sucesso que faz, pelos livros que vende. É difícil saber qual a categoria que tem mais inveja. Ela existe em todas elas.
Por que decidiu misturar ficção e realidade?
Zuenir Ventura - O livro é de ficção embora devesse ser de não-ficção. Mas não vou revelar o que é ficção e o que é realidade. É uma espécie de jogo lúdico que eu travo com o leitor. Eu trabalho na fronteira da ficção e da não-ficção. Nem a minha mulher, que sabe tudo da minha vida, sabe a composição da Kátia - personagem de uma das histórias. Um amigo meu diz que eu namorei a Kátia e para dar explicações à minha esposa eu digo que é ficção.
O livro pode ser considerado um desabafo pessoal sobre o sofrimento com a descoberta da sua doença?
Zuenir Ventura - Uma das coisas que me ajudaram a enfrentar o câncer foi escrever. Eu ficava escrevendo, escrevendo... Cheguei a jogar muita coisa fora, como se fosse um descarrego. Naquele momento eu não estava pensando que aquilo ia para o livro. Eu tinha a vontade de colocar tudo no computador, como se eu pudesse conversar com ele. Num determinado momento, adotei uma metodologia de incorporar tudo. Então por que não incorporar aquilo que era a coisa mais importante para minha vida naquele momento? Seria hipocrisia não falar do câncer.
E por que a comparação com a inveja?
Zuenir Ventura - O câncer é uma doença que estigmatiza. As pessoas agem assim em relação à inveja: não gostam de falar o nome, não gostam de mostrar que têm. É como a definição: ‘‘A inveja corrói como o câncer’’. O câncer, assim como a inveja, deprime. Não tenho vocação para a depressão e sim para a alegria. A melhor maneira é não se abater e enfrentar de cara.

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