Empurrando com a barriga
EMPURRANDO
COM A BARRIGA
Qual é a estratégia do governo Fernando Henrique? Quá-quá. É empurrar com a barriga enquanto os banqueiros continuarem aguentando a chamada âncora cambial a juros que fariam Shylock desmaiar de êxtase. Vamos aos poucos soçobrar sob o peso do débito externo e interno. A corrida do governo é para ver se segura o Real até que Fernando Henrique seja reeleito. Lembram do cruzado? A contagem dos votos ainda era inoficial, de pesquisas da mídia, com o PMDB tomando conta eleitoral do País, e os preços já explodiam para todos os cantos do céu. A impunidade no Brasil só se equipara à irresponsabilidade da classe dirigente.
A todos os meus amigos com filhos adolescentes aconselho que emigrem os garotos. É até mais barato. É mais em conta mandar um filho para Columbia do que à pitoresca Unicamp.
MALDITA
É Tina Brown, que mata semanalmente a New Yorker, um dos oásis letrados do jornalismo mundial.
No último número, Bernard Avishai escreve sobre Arthur Koestler. Não sobre sua importância política, talvez única entre escritores, à exceção de Soljenitsyn, mas sobre o fato de que se suicidou em 1983 e sua mulher, escrava branca, Cynthia, foi com ele. Descrevendo Darkness at Noon, que, em português, se chamou O Zero e o Infinito, diz que o livro é sobre os terrores dos expurgos stalinistas nos anos 30. O livro é sobre um velho comunista, Rubashov, misto intelectual de Trotski e Bukharin, que, preso como inimigo do povo por Stalin, resolve se confessar traidor. É uma meditação sobre a fé dos comunistas deste século. Rubashov conclui pela lógica que o faz confessar-se traidor, mas conclui também que é desumana. É como aquela avó judaica que diz ao homem que lhe ataca a fé: Tudo o que o senhor diz está certo, mas o senhor está errado. O impacto único do livro se deve a essa dialética intelectual e emocional de Koestler. Sua influência política é literalmente incalculável. Provocou respostas do mais alto gabarito, como o livro de Merleau-Ponty Humanismo e Terror. E poucos livros provocaram tantas lágrimas na minha geração. Poucos livros foram tão lidos e relidos. Depois de uma gafe dessas, o que me interessa o que Avishai tem a dizer sobre Koestler?
DINHEIRO GROSSO
Os Rockefeller, no início do século, tinham, em dinheiro de hoje, US$ 14 bilhões, é o que conclui Cary Reich, numa biografia de 700 páginas, Doubleday, (US$ 39), que cobre a vida de Nelson Rockefeller de 1908 a 1958, quando se elegeu governador do Estado de Nova York. Nelson morreu em 1979.
O avô de Nelson, John, é quem fez a fortuna. Numa certa idade, protestante, virou filantropo. Fez a primeira universidade negra nos EUA, Howard, e seu filho John D. criou o Instituto Rockefeller, um dos melhores centros de pesquisa médica do mundo, e n caridades. Nelson é, para meu gosto, a estrela da família, pois fez o MoMA. Nelson era Nova York. No bom e no mau sentido. Grande entusiasta das artes e cultura, e, ao mesmo tempo, em companhia do urbanista Robert Moses, destruiu a velha Nova York do comércio, pequeno comércio, que chegou a ter 2,5 mil gráficas artesanais, no lado oeste. Ainda hoje, Nova York é comércio. Nelson queria que fosse o quartel-general das grandes corporações do mundo. Chegou a ter 168 das maiores, mas, hoje, caiu a cerca de 60.
Nelson criou projetos faraônicos tipo Ward Trade Center, e rodovias que deformaram a cidade em favor do automóvel, esse fedor anti-social. O cavalo já foi um erro, dizia Thomaz Jefferson. Mas Nelson foi um homem de seu tempo. Governador três vezes do Estado, popularíssimo, de linguagem escatológica, priápico (morreu do coração no ato), era uma figura muito curiosa. Quis estrear Cidadão Kane no Radio City Music Hall até que Hearst, protótipo de Kane, o ameaçou de contar em série nos seus jornais a biografia do Rockefeller avô. Patrocinou artistas comunistas (trotsquistas, para ser exato), como Diogo Rivera, comendo a mulher dele, Frieda, e era uma personalidade renascentista. Deixou Nova York cheia de dívidas, mas animou muito a nossa vida.





