As águas geladas do Rio Urubamba se contorcem em corredeiras que driblam as pedras e ameaçam atletas radicais. Seu fluxo rebelde obedece o leito tortuoso que irriga planaltos e se embrenha na Cordilheira dos Andes para se tornar um dos formadores do Rio Amazonas e desaguar no Atlântico.
Antes, porém, o Urubamba dá vida ao Vale Sagrado, onde a Civilização Inca produziu alimentos e deixou vestígios monumentais. Posteriormente, o rio contorna, em plena cordilheira, a montanha que sustenta a cidade perdida de Machu Picchu.
O bote de borracha parece insuficiente para enfrentar corredeiras de tamanha importância. Os guias garantem que a aventura é segura. Só resta então controlar a ansiedade, colocar o salva-vidas, ouvir as orientações e sair remando montanha abaixo.
Para realizar com segurança o rafting - descida de bote - é necessário seguir cegamente as ordens do guia que comanda o barco. Assim é possível coordenar os tripulantes e evitar as pedras. Apesar da tensão, o clima é descontraído.
No início do trajeto desliza-se por uma calmaria. Há tempo para conversas informais e brincadeiras, uma forma de preparação para controlar a adrenalina. A tranquilidade permite observar detalhes do Vale. Há indícios dos Incas por toda a parte: terraças para plantio e contenção de encostas, pontes em ruínas, partes de complexos arqueológicos e cemitérios.
Em alguns trechos, as montanhas se erguem quase à beira do Urubamba, formando imensos paredões. Nas partes mais baixas os camponeses acenam para o bote. A maior parte das construções da zona rural peruana são de adobe, um tijolo produzido com barro cru. Como nem sempre as casas desse tipo resistem muito tempo, o Vale Sagrado também acumula ruínas recentes.
À frente do barco, um pato de correnteza desafia o rio, mergulhando nas águas turbulentas. A velocidade aumenta, é hora de remar. O primeiro obstáculo surge como uma onda formada pela corredeira. A água gelada espirra nos tripulantes enquanto o barco perde a horizontalidade. Às vezes os remos se chocam sem tocar a água. O esforço é grande para manter o equilíbrio numa sucessão de manobras.
Calmaria e correnteza se revezam durante os 20 quilômetros do trecho, próximo à cidade de Urubamba, cerca de 60 quilômetros de Cuzco. No final, o guia Carlos Infantas, 15 anos de trabalho com esportes radicais, elogia o desempenho da equipe. Enquanto os botes murcham para serem acomodados no ônibus, o Urubamba segue seu fluxo, tornando-se mais perigoso à medida que se aproxima de Machu Picchu. (R.P.)

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