Os gestos ganham vida, forma, beleza e emoção pelas mãos e por todo o corpo de Marcel Marceau, o mímico francês de 74 anos que se transformou em lenda mundial. Ele está em Curitiba para uma única apresentação hoje, no Guairão. É o último palco brasileiro, nesta turnê, depois de ter passado por outras quatro capitais.
Há oito anos o artista não vinha ao Brasil. Com a visita ele completa sua oitava turnê nacional. O espetáculo divide-se em duas partes: na primeira apresenta uma sequência de mímicas, que fizeram dele o maior em sua arte. A segunda parte é dedicada a Bip, personagem criado em março de 1947, que através dos tempos agrega novas histórias.
Os franceses assistirão em novembro aquilo que os brasileiros estão tendo oportunidade de ver agora - a perfomance que comemora os 50 anos de Bip. Marceau costuma dizer que o personagem levou o criador para os cinco continentes do mundo. Ele encanta platéias de qualquer parte do País.
O escritor Jean Cocteau escreveu em 1954 sobre o conterrâneo que trabalha com a arte da gestualidade: ‘‘Marceau é um mímico que atravessa os muros da língua’’. O fascínio que Bip exerce sobre as pessoas, foi traduzido de maneira poética: ‘‘Este personagem entra em nós pelos pés de um ladrão, com a terrível sem-cerimônia do luar’’.
Foi no Théâtre de Poche, em Paris, que nasceu a figura de olhar terno, rosto muito branco, um traço vermelho cobrindo a boca e um chapéu com uma folha sobre a cabeça. Era 22 de março de 1947, um ano após a estréia de Marcel Marceau como ator na companhia de Charles Dullin. ‘‘Bip e a Filha das Ruas’’ deu origem a essa história de meio século.
A importância da figura que tem alguma coisa de arlequim, reside na cumplicidade do criador com a criatura. Marceau não é dessas pessoas que ficam relembrando do passado tentando empurrar a vida ao futuro. Interpretar um mesmo personagem durante cinco décadas não é repetir-se, segundo o mímico:
- Bip não vive de lembranças. Sua evolução é feita de um olhar sobre o homem através de uma arte que se afirma por seu estilo. Seus combates são do mundo de hoje. Ele é como Don Quixote, lutando contra os moinhos de vento da existência.
RessonânciasNa longa trajetória do artista francês, que como poucos tem uma carreira palmilhada pelo sucesso, juntam-se momentos de tensão como aqueles quando seu país foi invadido por tropas nazistas. Ele estava nos cordões da resistência. Mas como sua profissão usa as palavras do silêncio, o sofrimento e a alegria moldaram-se nos gestos.
Gerações o acompanham. Os brasileiros o viram pela primeira vez em 1951. De lá para cá foram mais sete excursões. Em 1985 Marcel Marceau estava se apresentando na Rússia quando teve uma úlcera perfurada. Foram seis meses de convalescença. Voltou ao palco por inteiro, com saudade do tablado. ‘‘Para mim a idade não é problema. Meu problema é a busca da perfeição. Quando sentir que não poderei mais alcançá-la, aí sim eu me retirarei’’.
q Marcel Marceau - o grande mímico francês faz nesta quinta-feira, única apresentação em Curitiba. No Guairão, às 21 horas. Ingressos: R$ 40,00 (platéia até fila K), R$ 35,00 (até última fileira); R$ 30,00 (1º balcão); R$ 15,00 (2º balcão).

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