Numa sala escura cheia de poltronas ou no aconchego do lar, deitada na cama ou mesmo no sofá da sala, um mundo de emoções pode estar ao seu alcance. Num processo quase matemático, a arte do cinema - basicamente visual - consegue destrinchar, em pelo menos duas horas, facetas de uma vida ou de várias delas - sem deixar de esquecer os curta-metragens que encantam pela intensidade e regime de palavras.
Como se fôssemos espectadores e ao mesmo tempo sujeitos das ações, mergulhamos em enredos que muitas vezes se assemelham aos da nossa vida - ou não. Se defrontar com o diferente, o estranho e, às vezes, até assustador, nos mobiliza e traz a oportunidade de vivenciar uma experiência única, subvertendo a rotina do cotidiano - que às vezes parece ser uma repetição sem graça de cenas.
Para os mais sensíveis, o cinema pode levar a águas mais profundas e - dependendo do enredo - provocar lágrimas e até soluços. O cinéfilo e médico Isaias Dichi garante que não é muito chorão, mas admite que se desmancha ao assistir a filmes que abordam a temática do abandono - como o ''Regras da Vida'', em que um médico que pratica abortos decide abrir um orfanato para as crianças que não foram abortadas. ''É essa dualidade que me emociona. Nem sempre chego às lágrimas de fato. É mais comum sentir arrepios'', resume.
Chorar em público nem pensar: ''Sou da época que homem não chora'', brinca. Filmes mais leves como ''Sintonia do Amor'' - que considera o enredo interessante - também o emocionam, mas de uma forma mais sutil. ''O cinema é uma forma de expressão que inevitavelmente passa pela fase cognitiva, emocional e afetiva. E, quando realmente me toca, tenho vontade de ver de novo, mas isso é bem raro.'' Ultimamente, Dichi conta que anda meio nostálgico, tendo vontade de rever alguns filmes, como o Cinema Paradiso, Taxi Driver e Casablanca, que considera grandes filmes.
Alimento estético
A empresária Luciana Cotrim, que segue religiosamente o hábito de ir quase toda semana ao Cine Com-Tour, afirma que normalmente não gosta de blockbusters e faz questão de não comprar DVDs piratas. Na companhia do marido Francisco Gomes, que é empresário e tem como característica ser mais reservado, se sente à vontade para extravasar as lágrimas. ''O que mais me comove são as histórias verídicas que falam da miséria em suas diversas formas. Chorei muito ao assistir a 'Os Dois Filhos de Francisco'. E como não tinha lenços de papel à mão, usei a manga da blusa mesmo'', lembra.
Luciana conta também que às vezes se emociona posteriormente. Foi o caso do filme ''A Partida''. ''Na hora não me emocionei. Mas depois comecei a lembrar do meu pai, que já é falecido, e do quanto a nossa relação não foi tão delicada quanto a do filme'', diz. Fora o cinema, ''por ser extremamente visual e ter que ver para sentir'', Luciana comenta que a música clássica também atinge em certo o seu coração.
Os filmes mais românticos - como Dirty Dancing, Ghost e até Top Gun - chegaram a ser vistos por ela mais de dez vezes e Tom Cruise era o ídolo eleito, da época, por ela e suas amigas adolescentes. Filmes de suspense também a agradam e ''A Vila'' é um dos seus prediletos. ''Sou muito detalhista e adoro trabalhar a percepção do que está por vir. Gosto de brincar até que ponto o roteirista não falhou na hora de contar a história. Acho que seria ótima para apontar as falhas naqueles programas do gênero na televisão''. Bem humorada, Luciana brinca que para ela o cinema é o seu ''alimento estético'': ''Sinto falta quando não o recebo'', garante.

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