Emocionado culto ao canto
PUBLICAÇÃO
domingo, 03 de setembro de 2000
Zeca Corrêa Leite De Curitiba 
Quem pensa que se extinguiu a era das cantoras que se desfazem e se recompõe nas canções, como acontecia com Elis Regina e como acontece com Alaíde Costa, ainda não viu Ana Luiza, moça de São Paulo, que passou sexta e sábado pelo Teatro do Paiol, em Curitiba. O show que poderia ser daquelas coisas bem feitas e comportadas transformou-se para a platéia num momento de grande beleza, sensibilidade, paixão ao ato de cantar e de escandir as letras de nossos compositores poetas.
Foi um encontro marcante de músicos e público numa das melhores apresentações vividas por aquela casa neste ano. Ana Luiza tem uma voz como poucas, timbre marcante, potência vocal que ela maneja conforme suas emoções e em momentos sussurra a música, num intimismo que leva de roldão todas as resistências, se é que alguém resista à sua arte. Nessas passagens vem o amparo discreto do trompetista Paulinho Baptista.
Mas o conjunto que a acompanha está sintonizado no mesmo clima: Ricardo Zoyo (contrabaixo), Mário Conte (bateria), Paulinho Baptista (trompete) e Luiz Felipe Gama (piano), responsável pela direção musical. Desse entrosamento na sexta-feira Natan Marques estava em cena, vindo especialmente de São Paulo só poderia resultar em coisa boa.
Ana Luiza, finalista do Prêmio Visa ano passado, está semeando sua arte por onde anda, na certeza dos frutos. Nessas passagens leva junto compositores jovens, autores de obras de alta qualidade, que teimosamente serão ouvidos um dia por aqueles de bom gosto. A esses junta aquilo que ela chama de pérolas realmente pérolas produzidas por Chico Buarque, Tom Jobim, Vinícius de Moraes. E se despenca em lágrimas.
Infelizmente nem a sua distribuidora Eldorado parece levar muito a sério a cantora de seu elenco. Mandou poucos CDs da moça para Curitiba, e é claro que depois do show havia mais interessados que discos disponíveis. Quem quiser conhecer o trabalho de Ana Luiza pode ligar para (11) 386540 ou acessar o e-mail [email protected] e pedir o seu.
Mas vê-la no palco tem elementos distintos de ver as mãos, as linhas do rosto se crispando, suavizando, se abandonando, na dualidade do gozo e da dor que a gente via em Elis e vê em Alaíde. Ana Luiza faz parte dessa família de apaixonadas mulheres incandescentes.


