Francelino França
De Londrina
Marco Nanini, o múltiplo servidor da arte teatral brasileira, volta à cena para deleite dos curitibanos. Ator, produtor e diretor, ele se renova a cada montagem e, como sempre, surpreende. Desta vez, em ‘‘Uma Noite na Lua’’, texto e direção de João Falcão, a proposta é desvendar os segredos da criação artística, passando pelos subterrâneos da mente de um escritor angustiado.
‘‘Uma Noite na Lua’’ retrata a tentativa de um homem domar sua energia criadora. Esse homem – o personagem não possui nome – sonha em escrever um texto e, para isso, precisa orbitar fora da realidade para concretizá-lo. É no momento solitário da criação artística que emergem muitos de seus fantasmas. Os nós que se desatam de sua mente permitem ao personagem perder-se e encontrar-se. Nanini tem energia para chegar à Lua, mover um foguete, tamanho é seu vigor nos domínios do palco. Sua interpretação é irrepreensível.
O personagem permanece num ziguezague infindável entre a promessa de concluir o texto teatral e o tormento de conviver com o fantasma de sua amada Berenice. Ele não é um derrotista, só não é prático. ‘‘Tudo o que faço e o que sinto fica sempre na metade. Querendo quero o infinito, fazendo nada é verdade’’, versos de Fernando Pessoa que definem quem é esse personagem.
Os elementos que dão suporte ao espetáculo fazem um show à parte. ‘‘Uma Noite na Lua’’, com minucioso desenho cênico, se transforma numa arena de imagens e experiências visuais que estimulam, provocam e perturbam a platéia de forma pouco vista nos palcos brasileiros.
Essa ‘‘voz interior’’ que percorre o palco dialoga com elementos cênicos high tech. João Falcão insere a tecnologia competindo com as visões da realidade. O uso desses elementos, em determinados momentos, rouba a cena. Um exemplo disso, é quando a sombra do personagem resolve ter vontade própria ou o telão que mostra o ator em perspectivas inusitadas. Até os espectadores são surpreendidos com imagens projetadas no palco. Um imenso e colorido cartão surge também magicamente para maravilhar por alguns minutos os espectadores.
Teatro, como provam os encenadores, é um tipo de liberdade que se abre para o inesperado. Os recursos tão incríveis apenas subsistem em função do soberano talento de Marco Nanini. Se o cérebro eletrônico comanda o mise-en- scéne high tech, é a energia do ator que orquestra os impulsos da dúvida e hesitação.
Quando finaliza o ato teatral, o que sobrevive na memória do espectador é a figura do ator, muito mais do que o discurso de João Falcão. Esse viajante do tempo, há 33 anos em cena, nos faz questionar a cada montagem: ‘‘Será que Nanini tem existência real?’’

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