São Paulo, 22 (AE) - Ao resumir a intenção do Prêmio Eldorado de Música, que fez sua 6.ª eliminatória na noite de terça-feira, no Teatro Cultura Artística, a pianista e membro do júri Maria José Carrasqueira parecia prever. "Encontrar talentos na música brasileira não significa apenas encontrar bons instrumentistas; o músico deve ser cativante e capaz de trocar de alma com o público."
Foi justamente essa a maior qualidade do violinista Cláudio Micheletti, de 22 anos. Mais do que mostrar um repertório tecnicamente exigente e dominar as dificuldades com sua execução precisa, o músico conseguiu interpretar seu repertório - requisito básico que se torna grande desafio em um concurso.
O início com a movimentada melodia barroca da "Sonata n.º 1 em Sol Menor", de Johann Sebastian Bach, foi a melhor escolha para uma primeira troca com a platéia. Vibrante e vigorosa já nos primeiros compassos, a obra de Bach ganhou vida nas mãos seguras do instrumentista e conquistou o público também por sua fácil assimilação. Já acompanhado pelo pianista Mário Andrea Balzi, Micheletti iniciou a "Sonata n.º 4", de Cláudio Santoro. Contrapondo diálogos fugazes com o piano, o instrumentista intercalou com a mesma força da abertura momentos de tensão e suavidade com uma precisa dinâmica.
Para superar o início sombrio de "Tzigane" (Rapsódia de Concerto), de Ravel, Micheletti deixou-se reger pela emoção. Até a entrada do enérgico e preciso piano de Balzi, o músico desenvolveu a melodia grave e ágil com variados recursos técnicos. Pizzicattos, vibratos potentes, arrastres e ligados conduziram a bela obra de Ravel para a conclusão mais perfeita da noite.
A música de Micheletti parecia ainda estar na sala quando surgiu no palco o recifense Horácio Gouveia. A "Sonatina n.º 3", de Camargo Guarnieri, serviu para limpar o ambiente com suas intenções de baião nos arpejos do movimento allegro e com sua pulsação saltitante. Mas os movimentos posteriores mostrariam um candidato com referências complexas e pouco preocupado em ganhar seu público unicamente pela melodia.
"Rounds", de L. Berio, foi o maior exemplo de ousadia anti-harmônica e melódica. Instantes inesperados de marteladas no teclado e uma dinâmica que mostrou volumes do pianíssimo ao forte são características de uma peça que exige referências mais abstratas. A "Suíte de Danzas Crioullas Opus 15", de A. Ginastera, encerrou sua apresentação com a volta das referências perdidas, principalmente nos movimentos com allegros.
A reação menos entusiasmada da platéia não deve julgar Gouveia. Seu repertório mais exigente se comunica com dificuldade com ouvidos menos preparados e sua intenção nem sempre é de satisfazer o gosto comum. Como um pintor abstrato, o instrumentista causou sensações das mais distintas.
A compenetradíssima pianista sul-coreana Eun Yuong Lee encerrou a noite com uma execução de técnica impecável e de grande capacidade emotiva. Mesmo diante de peças com complicações também para a mão esquerda, Eun conseguiu deixar-se levar pelas melodias e transpareceu uma regrada formação musical.
Sua entrega nas interpretações foi tanta que, nos finais de cada de movimento de "Pour le Piano", de Debussy, o público ameaçava interromper com aplausos. Com a mesma segurança e concentração, a pianista interpretou as obras de Lizst ("Gnomenreigen e Waldesrauschen") e encerrou com uma cativante "Festa no Sertão" (Villa-Lobos). Estava entendida a definição de talento anunciada por Maria José Carrasqueira.

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