São Paulo, 03 (AE) - No dia 23, às 17 horas, a Praça da Moça (Rua Graciosa), no centro de Diadema, na Grande São Paulo, terá cerca de 4 metros quadrados do seu chão recoberto de carvão. A área será o fundo para o mapa do Brasil, desenhado com 50 dúzias de velas brancas. Qual o sentido disso? Muitos. Cabe à interpretação individual encontrar (ou não) os significados dessa instalação, que se chama "Brazil" e foi criada pelo artista plástico paraense Emmanuel Nassar.
O evento faz parte do projeto Arte Pública, uma iniciativa do Departamento de Cultura da prefeitura de Diadema, que conta com o apoio cultural do Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (Ciesp) e da Secretaria de Desenvolvimento Econômico e Turismo da cidade. A idéia do Arte Pública é levar arte à comunidade e, ainda, promover a reflexão sobre o papel do artista na sociedade. As velas acesas consomem-se e fazem o fogo propagar-se por todo o carvão, dissolvendo o mapa numa grande fogueira.
"O efeito sonoro produzido é bastante impressionante", conta Nassar, em entrevista à reportagem. O interessante é que, para começar, Nassar vai precisar da ajuda de pessoas do local, que terão de acender as velas, praticamente ao mesmo tempo, para que o desenho iluminado do mapa seja perceptível. Um ato coletivo, que envolve o público no processo criativo.
Pintura - A instalação "Brazil" começou com uma pintura em chapa de alumínio, mostrada pela primeira vez numa exposição coletiva, em 1996, no Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM). Era parte de um conjunto de outras peças de metal. Em 1997, Nassar foi convidado para expor no Salão Arte Pará, em Belém. Dessa vez, usou a pintura como instalação: o chão da sala foi recoberto com carvão e a pintura ficou numa das paredes. E, assim como ocorreu na exposição, será "nesse contexto completamente desidealizado que deve ser percebida essa instalação".
O curador do MAM, Tadeu Chiarelli, no texto que escreveu sobre a instalação no Arte Pará, questionava se ela não seria "uma metáfora do desmatamento da Amazônia ou uma representação simbólica do País, ardendo em chamas". A justificativa era dada por ele mesmo, em seguida: "A arte contemporânea, justamente por não se atrelar a códigos preconcebidos ou, por sua configuração final, desconstruí-los, acaba deixando margem para todos os tipos de interpretação".
Chiarelli defendia que "Brazil" de Nassar poderia ter todas aquelas interpretações, ou não: "Aquela obra conta com a sensibilidade do público para que lhe seja conferido algum sentido". O interessante será justamente esse contato com o público formado, em grande parte, por pessoas que pouco conhecem sobre artes plásticas e terão acesso a essa obra inédita. A pintura foi, em 1999, para Galeria Luísa Strina, onde se encontra até hoje.
Essa nova versão de "Brazil" foi criada a partir de um estímulo, provocado pela cineasta Andréa Velloso. Para o seu filme "Tendrel - Rede Interdependente", ainda não-lançado, ela pediu a Nassar que fizesse uma reflexão sobre o elemento fogo, um dos cinco elementos tratados no filme. Ele preferiu não falar nem apenas mostrar a pintura. Fez, inspirado na ação que existe no cinema, a nova versão de "Brazil". Usou para isso o carvão e a cera (na forma de vela).
"Eles representam os opostos, no sentido e na forma, que são temas recorrentes nas minhas obras", afirma Nassar. A intervenção fará parte do projeto Arte Pública, que reunirá cerca de 20 artistas plásticos e pessoas das áreas de teatro, música, circo e dança. O evento terá início sexta-feira e segue até 31 de maio, em Diadema. Nassar também participa da "Bienal 500 anos", que será realizada em São Paulo, a partir do dia 23, no Pavilhão Manuel da Nóbrega, no Ibirapuera.
O olhar atento e irônico do artista estará presente na releitura que ele fez sobre a Carta de Caminha. Nassar foi um dos 11 artistas brasileiros escolhidos. "Em um grande banner reproduzi uma das páginas e fiz uma espécie de grafite das minhas iniciais com prego, como se fosse um ato de vandalismo", diz. "Ao contrário de Brazil, em que trabalhei com um símbolo banalizado, que é o nosso mapa, pude ter contato com um objeto que está sendo endeusado".
Há mais de duas décadas, Nassar cria um trabalho consistente e autoral, que tem repercussão internacional, sem deixar de morar onde gosta: à beira da selva amazônica. "Nassar não é um artista que simplesmente se apropria de um universo de cores e formas populares para, ingenuamente, enaltecer a pureza e a criatividade do bravo povo do Norte; ele está atento à suposta banalização e ao esgotamento das linguagens plásticas eruditas", definiu Chiarelli.

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