''Rocky'', ''Fama'', ''Fashdance'', ''Embalos de Sábado à Noite'', ''The Commitments''. E segue a lista. Nos últimos tempos, Hollywood tem se voltado uma e outra vez ao ''mesmo'' filme sobre o nascimento de uma estrela, seja da dança, do boxe, do basquete, do futebol americano, do rock. Esta premissa, da qual já fazem parte também os mais recentes ''reality shows'' televisivos, que se propõem a descobrir modelos ou futuros astros pop, admite neste momento o astro alternativo Eminem, por ora a figura mais polêmica e bem sucedida da música norte-americana. ''8 Mile - Rua das Ilusões'', em lançamento nacional a partir de hoje (veja a programação de cinema na página 2), tem argumento semi-autobiográfico baseado na história do rapper e apela ao grande estereótipo deste subgênero garoto pobre criado num meio familiar disfuncional, em bairro violento, supera todos os contratempos imagináveis para finalmente triunfar (não apenas economicamente) graças à perseverança e ao talento.
Na decadente Detroit de meados da última década, tudo é pessimismo. Conflitos econômicos e raciais substituíram as promessas de potencia industrial e de prosperidade. A rua 8 Mile Road, na periferia da grande cidade, é agora o limite entre o urbano da confortável e acomodada classe média branca e o subúrbios proletários sub-habitados majoritariamente por negros. Mas em Detroit há uma longa tradição de criatividade sob pressão, e em boa parte das vezes através da música. O som influente da revolucionária gravadora Motown, a maestria de Aretha Franklin, o chamado ''som Detroit'' de roqueiros como Mitch Ryder, Bob Seger ou o grupo MC5. A música da cidade teve sempre raízes operárias e expressou a dura realidade das ruas sem meias palavras. E a música hip hop não é nenhuma exceção. Para garotos como Jimmy ''Rabbit'' Smith Jr. (Eminem), o hip hop é a única coisa que os separa do abismo.
Rabbit é um jovem que vive com a mãe (Kim Bassinger) e uma irmã menor. As relações familiares são complicadas, bem como com duas garotas com ideais diferentes. Durante o dia, o rapaz ganha uns poucos dólares numa fábrica de modelagem de automóveis. À noite sai com um grupo de amigos negros, autodenominados ''banda 313'', código postal do bairro, tentando superar seus bloqueios mentais e participar de concursos destinados a descobrir futuros talentos do hip hop.
Dirigido sem nenhum rasgo de personalidade por um Curtis Hanson que vem de um brilhante clássico moderno como ''Los Angeles Confidencial'', e apoiado em roteiro de linha dramática simplificada em demasia, ''8 Mile'' acaba se apoiando na surpreendente naturalidade de Eminem. Longe de ser um grande ator, com a evidente ajuda de Hanson ele se livra de excessos que poderiam expor seu personagem ao ridículo. Outro ponto positivo é a sólida estrutura formal. Não era para menos: a produção se garantiu com nomes de peso, como o diretor de fotografia Rodrigo Prieto, que tem no currículo a bela iluminação obtida em ''Amores Perros'' e ''Frida''; o desenhista de produção Philip Messina, fiel colaborador de Steven Soderbergh, e o editor Jay Rabinowitz.
É provável que o público não iniciado no território das rimas e no fraseado do rap ache muito extensos ou tortuosos os duelos entre Rabbit e os rivais afro-americanos. Também é evidente que o filme foi pensado como veículo para vender milhões de discos da trilha sonora da qual participam diversos artistas contratados pela empresa do próprio Eminem. E afinal, mas não por último, o espírito de ''8 Mile'' é de encomenda para tentar neutralizar a misoginia, a homofobia e o racismo das letras do rapper, graças a um retrato cinematográfico que o deixa sempre com a imagem de bom moço.
Sem ser um filme aborrecido ou nulo, ''8 Mile - Rua das Ilusões'' é no entanto limitado. Se a história fosse construída com mais substância e consequentemente mais força, o público potencial não se restringiria a uma parcela tão concreta e rotulada.

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